Álbuns Intelectualmente Cansados


Outro dia eu vi um vídeo sobre o estilo intelectualmente cansado que não tinha nada a ver com música, e ai e comecei a pensar quais álbuns para mim soam como essa deinição. Então eu cheguei a 8 álbuns que pra mim transmitem essa estética de cansaço mental por razões diferentes e resolvi escrever sobre eles.

Observações: A lista não está organizada por ordem crescente ou descrevente de quem representa mais ou menos, foi apenas a ordem que eu fui pensando nos álbuns. E também eu tentei evitar bandas que sempre parecem cansadas mentalmente no seu material como o Radiohead, Alice In Chains, Joy Division etc.


Nirvana - In Utero

Esse foi o primeiro disco que veio na minha cabeça quando eu pensei em escrever esse artigo e pode ser porquê eu vejo a capa toda hora que eu olho pro meu braço mas de toda forma eu acho que a definição para ele é perfeita. O próprio Kurt Cobain era alguém intelectualmente cansado, porque ao mesmo tempo que ele tinha aquele gosto esnobe por música com um conhecimento de um monte de bandas undergrounds que ninguém nunca ouviu falar ele também era uma pessoa exausta com os seus problemas de vida, e como eu já disse nesse blog para mim o In Utero é a definição perfeita de quem era o Kurt artisticamente e também como pessoa. O disco abre com a frase “raiva adolescente me pagou bem, agora eu estou entediado e velho” e esse é o nível de sarcasmo que só poderia se encaixar em um disco que está tentando ser inteligente, mas sem aquela pompa de superioridade e por isso o uso desse humor autodepreciativo. Toda vez que eu escuto esse álbum eu sinto que é exatamente o que a banda queria ter feito o tempo todo, ele mistura toda a energia que os três conseguiam produzir junto com um esgotamento mental que fica claro por todas as músicas, é um som cru e honesto de alguém que claramente não curtiu a fama que ele perseguiu por toda a vida com ótimos riffs e letras irônicas e contemplativas, e isso para mim é a definição perfeita de um disco intelectualmente cansado. Se o Nevermind foi o que transformou o Nirvana na voz daquela geração para mim o In Utero foi o que não deixou eles serem esquecidos elas próximas gerações.


The Doors - L. A. Woman

Eu acabei de escutar e escrever sobre esse álbum, então ele ta bem fresco na minha cabeça e também é um exemplo bem óbvio pra mim de um som que ilustra essa definição. Enquanto os primeiros discos do The Doors tem esse ar jovial e rebelde de um rockstar culto traçando poemas sobre a existência o último deles é uma longa estrada de um eu lírico que já esteve por muitas estradas, parece cansado, mas ao mesmo tempo não sabe mais a volta do caminho para casa então ele só consegue continuar indo pra frente. O blues pesado do disco torna a sonoridade mais orgânica e menos teatral, enquanto as interpretações vocais do Morrison revelam alguém que parece observar a própria vida de fora, sem a necessidade de provar nada. A própria voz dele soava cansada, alternando momentos de energia e uma serenidade incomum. Além disso o álbum tem esse tom meio profético sobre a eventual morte do líder da banda, poucos meses após o lançamento do disco, Morrison morreria em Paris, e por isso muito das letras desse disco são sobre dirigir para um destino que não sabemos qual é e a transformação para outros planos. A atmosfera toda desse álbum é o que pra mim transforma ele em algo intelectualmente cansado, porque o Jim Morisson, assim como o Kurt Cobain, e provavelmente toda a leva do clube dos 27, sempre teve essa vibe na vida pessoal dele, mas é aqui nesse disco final, com esse blues pesado que realmente o The Doors passa a vibe da exaustão mental que é dirigir e dirigir na estrada da vida sem um destino claro.


David Bowie - Blackstar

Ser jovem e estar emocionalmente exausto é um sentimento que a maioria de nós já passou e vai passar, e até certo ponto faz parte da vida, agora você ter a certeza da sua morte a um curto prazo e transformar isso em arte é algo bem mais singular. Blackstar foi gravado enquanto o músico enfrentava um câncer mantido em segredo do público, o álbum foi lançado apenas dois dias antes de sua morte e o Bowie que já brincou com tantas personas e perspetivas diferentes aqui brinca com a sua própria mortalidade. O disco, que é um dos seus melhores trabalhos, traz uma sonoridade que mistura jazz contemporâneo e música eletrônica com o seu habitual rock, e é uma obra cheia de simbolismos sobre o a sua morte física e a continuação do seu legado para a eternidade. Particularmente eu gosto muito de como ele usa a figura de Lázaro, que na bíblia é ressuscitado por Jesus para fazer essa dualidade entre a pessoa que está saindo da vida ali mas como a figura do David Bowie é impossível de desaparecer, e a faixa especifica transmite uma serenidade incomum, como se o Bowie tivesse aceitado um destino inevitável e se transformado nessa consciência de expressão artística. O que pra mim torna o Blackstar tão impactante é que de forma alguma ele é não é um álbum triste, toda a experimentação musical junto com a extraordinária lucidez com que o artista encara o fim da própria vida faz dele uma experiência talvez melancólica, mas reconfortante. É um álbum feito por alguém consciente de sua despedida, que utiliza a arte para transformar o inevitável em uma última demonstração de criatividade.


Kendrick Lamar - DAMN

Eu sei que muita gente colocaria o Mr. Morale & The Big Steppers aqui para representar o Kendrick, mas enquanto esse álbum é ele confrontando os seus erros e se mostrando mais humano, eu acho que ele vem de um lugar de alguém que já está em paz e está apenas contando o seu processo, enquanto isso o DAMN é um disco bem mais existencialista. Esse disco vem de duas reflexões do rapper, uma bem simples e outra bem complexa, a primeira é a insegurança de ninguém estar rezando por ele, ou seja, ele não ter ninguém para contar, algo que ele repete ao longo do disco inúmeras vezes, e a segunda é como a vida dele teria sido diferente se o seu pai tivesse sido morto pelo cara que viria a ser o seu empresário no futuro em um assalto, como ele mesmo diz a vida é você colocar dois estranhos e colocar eles em situações aleatórias para que eles possam fazer suas escolhas e viver com elas. Depois de lançar To Pimp a Butterfly e ser reconhecido como um dos artistas mais importantes de sua geração, o Kendrick passou a carregar expectativas quase impossíveis de atender, em vez de ignorar esse peso, ele o incorporou nessas músicas, explorando conflitos como orgulho ou humildade, fé ou dúvida, violência ou redenção, estando conflituoso o disco todo sobre qual lado ele deveria tomar. O álbum é construído como uma sequência de dilemas internos, nos quais cada faixa revela uma faceta diferente de sua mente. Acho que DAMN é um bom exemplo que um disco intelectualmente cansado não precisa ser triste ou trazer alguma tragédia por trás dele, esse é provavelmente o álbum mais comercial do Kendrick e muita gente escuta ele todo sem nem pegar essas nuances apenas porque os flows dele são incríveis e os beats excelentes. E embora ele tenha essa produção moderna e acessível, DAMN transmite a impressão de um artista constantemente dividido entre quem é, quem o público espera que ele seja e qual o verdadeiro papel de sua música em um mundo cada vez mais caótico.


Childish Gambino - 03.15.20

Daria para fazer uma edição apenas dos álbuns que foram lançados na época da pandemia e que o tema era sobre esse isolamento social, acho que todos estávamos esgotados mentalmente naquele período, eu pensei no This Is Why do Paramore, ou no Fetch the Bolt Cutters da Fiona Apple, mas para mim com todos os defeitos que ele tem em mixagem e em falta total de promoção, eu ainda acho que o 03.15.20 do Gambino é o que traduz melhor qual era o sentimento de viver em pandemia. O próprio Donald Golver é uma pessoa que se enquadra no estilo e na personalidade do artista intelectualmente cansado, a minha mente já fica cansada de imaginar como deve ser ter 400 ideias ao mesmo tempo e transformar elas em projetos que provavelmente nunca vão ser levados para frente porque você já teve outra ideia que você focou mais, e eu gosto como esse disco é algo que ele queria expressar da forma mais crua possível, como se ele não pudesse esperar a própria mente dele pensar em um título de álbum, ou no nome das faixas ou sequer em uma capa porque ele sabia que se ele não lançasse mais ele iria pensar demais e descartar todo o projeto. Esse senso de urgência pra mim permeia todo o disco, o assunto principal dele é esse tempo escorrendo pelas nossas mãos, enquanto tudo está passando mais rápido do que nunca na nossa percepção tentamos segurar ele de alguma forma tentando ser lembrados, querendo ser especiais em mundo que está acabando porque nós estamos destruindo ele (isso tudo antes da IA ser uma coisa heim). Esse clima de pressa com o instrumental cheio de experimentações de neo soul e o Gambino fazendo alguns dos vocais mais ortodoxos da sua carreira fazem pra mim esse disco caótico e estranho como eu precisava ouvir na pandemia. Quando eu escrevi os melhores de 2020 eu coloquei ele como clássico, hoje eu já não colocaria nessa prateleira, mas ainda assim é o disco que eu indicaria para qualquer pessoa que gostaria de saber como foi o sentimento de viver aquele ano.


Florence + The Machine - High As Hope

Aqui a gente vai para uma outra perspetiva, não apenas por vir de uma visão feminina, mas também porque a gente troca o caos pela calmaria do processo de estar intelectualmente cansado. Como o próprio nome do disco já diz o tema desse álbum é a esperança de dias melhores, e para trazer essa sensação a Florence diminui tudo, a produção é mais minimalista, a voz é menos explosiva e as letras são muito mais confessionais, é quase como se aqui ela abandonasse a performer Florence e cantasse como a pessoa Florence Weich, parece que ela não está mais tentando impressionar ninguém. O disco também reflete o momento específico na vida dela, a Florence que se destacou com uma voz explosiva e um jeito teatral nas performances dela no palco, nunca escondeu que fora dessa persona ela é uma pessoa extremamente tímida que sofria com problemas sérios de ansiedade. Então no processo de criação desse disco a cantora disse que havia reduzido drasticamente o consumo de álcool, estava buscando uma vida mais estável e que queria escrever de maneira mais direta, sem esconder suas experiências atrás de metáforas grandiosas ou personagens. O objetivo era que as músicas soassem como conversas, e não como grandes performances. E se esse fosse um álbum sobre o processo de autoconhecimento e autoaperfeiçoamento ele não se enquadraria nessa lista, mas ele é mais reflexivo em um sentido cansado, ela reflete sobre a fragilidade da vida, a ansiedade provocada por acontecimentos políticos e sociais, e um desejo quase desesperado de preservar algum tipo de esperança. Por isso, High As Hope difere tanto dos trabalhos anteriores da banda, ele não é um álbum sobre alguém tentando vencer seus próprios demônios pela força ou pelo excesso, é mais um disco sobre alguém passando por um processo de amadurecimento ao mesmo tempo em que a cabeça dela continua trazendo esses problemas existenciais, e em vez dela gritar ela resolve cantar baixo nos seus próprios termos.


Blur - 13

Não teria como eu fazer uma lista dessas sem citar o cara mais intelectualmente estimulado da música Damon Albarn, enquanto e estou escrevendo isso ele deve estar lançando uma peça de teatro nova ou algo do género, e claro que escrevendo e criando tanto alguma hora ele ia ter que lançar uma obra que refletisse a exaustão mental que ele eventualmente teria em algum momento, e pra mim essa obra veio em 1999 no sexto álbum de estúdio do Blur. Enquanto o Blur se solidificou como um dos grandes nomes do britpop por causa das suas músicas cheias de sátiras sociais, refrões memoráveis e uma energia juvenil em seus primeiros álbuns, o 13 vem com uma pegada diferente. Inspirado pelo término de relacionamento de 8 anos do vocalista com a sua namorada e o alcoolismo do guitarrista que estava saindo de controle e prejudicando a banda que já estava vendo o fim da era do britpop acabar a não sabia muito o seu destino a partir dali, o Blur abandona o retrato irónico da sociedade inglesa e os personagens e o Damon escreve de maneira profundamente autobiográfica apoiado por uma sonoridade que usa distorções e arranjos quebrados, como se alguém estivesse arrastando a guitarra no chão. As letras revelam um compositor muito diferente daquele dos primeiros discos, Albarn troca a ironia por uma busca sincera por acolhimento e redenção, e em vez de expressar raiva pelo fim do relacionamento, ele canta como alguém completamente esgotado, encarnando o próprio Napoleão e aceitando que não existe mais nada a fazer, basicamente toda a energia para continuar lutando acabou. Apesar do instrumental que mistura art rock com distorções não há explosões emocionais aqui, apenas uma mente tentando reorganizar pensamentos depois de um longo período de desgaste. É justamente essa ausência de dramatização que faz de 13 um álbum tão singular, o disco soa como o retrato de alguém que perdeu certezas, questiona o próprio caminho e já não encontra respostas fáceis em uma exaustão silenciosa, em que o cansaço não surge da falta de criatividade, mas talvez do excesso dela e das experiências acumuladas.


Mac Miller - Swimming

E por fim vamos encerrar com o álbum que pra mim melhor definiu esse conceito da primeira vez que eu ouvi. Eu já era muito fã do Mac Miller e já conhecia todas as suas fases, da fase festeira das mixtapes, até a depressão do Faces e Watching Movies With The Sound Off, e a fase mais otimista e amorosa do GO:OD AM e o The Divine Feminine, mas nada disso me preparou para a vibe do Swimming. O título já traz o conceito todo dele, pois ele está nadando contra a correnteza que é os seus problemas, e se ele parar de nadar ele vai afundar.  Mac Miller reconhece suas falhas, admite seus medos e demonstra uma consciência incomum sobre a própria vulnerabilidade, em vez dele buscar as respostas definitivas, ele aceita que a recuperação é um processo contínuo, feito de pequenos avanços e inevitáveis recaídas, com a ideia de seguir em frente mesmo quando não se sabe exatamente para onde ele vai. Porém enquanto os temas são pesados o Mac Miller na produção constrói um álbum de timbres quentes, grooves suaves e instrumentações inspiradas no jazz, soul, RnB e funk, criando uma atmosfera leve e quase acolhedora e por isso o valor de replay dele seja tão alto até hoje. Eu também gosto de como ele fala de overthinking nesse disco, com essas voltas e voltas que a sua mente da te relembrando de coisas que na realidade talvez nem importem tanto assim, e aqui ele demonstra uma mente incapaz de descansar, constantemente revisitando decisões, relacionamentos, erros e expectativas que ele e as outras pessoas colocaram em cima dele. Pra mim esse é um dos álbuns que melhor traz esse sentimento de pensar demais que foi ficando cada vez mais presente nessa nossa sociedade super estimulada, com ele retratando essa mente que nunca para. Como todos sabem o Mac Miller morreu algumas semanas depois do lançamento desse disco, e posteriormente foi lançado o Circles que seria parte desse conceito do “nadando em círculos”, mas enquanto o Circles eu vejo mais como o Mac Miller em paz com as suas escolhas em um plano astral o Swimming é o disco dele que realmente me traz a vibe de um artista exausto porém usando a sua criatividade para tentar fazer o mundo compreender como a sua mente funciona.


E essa é a minha lista de álbuns intelectualmente cansados. Eu sei que devem ter inúmeros outros que se encaixam nessa definição mas ou eu não os ouvi ainda ou eu não pensei neles na hora de fazer a lista, alguns outros poderiam ter entrado mas eu achei que não se encaixavam bem, enfim, por enquanto essa é a lista, se eu pensar em mais álbuns eu faço uma parte 2 no futuro. O próximo artigo do blog deve ser sobre um momento muito especial da música que está fazendo 10 anos agora em agosto de 2026 e não teria como eu não escrever sobre ele aqui. Até la. 


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