Eu já falei sobre o melhor trabalho do Mac Miller, sua obra prima chamada Faces lançada em 2014, e agora é hora de falar do meu trabalho favorito dele lançado no ano seguinte. GO:OD AM é o terceiro álbum de estúdio lançado pelo Mac e marca um importante marco na sua carreira, o momento em que ele musicalmente resolveu sair das trevas e acordar para um mundo novo.
Depois de colocar para fora toda a sua depressão e medo de largar o seu santuário onde ele apenas ficava o dia Inteiro criando música e usando drogas em 2013 e 14 Mac em 2015 fez o que muitos achavam impossivel, ele ficou sóbrio. Assim surge a ideia do GO:OD AM, Mac se muda de Los Angeles para Nova York, deixa o seu reality show na MTV que se chamava Mac Miller and The Most Dope Family, começou um relacionamento novo, ele também assina um novo contrato com a Warner Bros através da gravadora REMember, tudo indicava que um novo ciclo se iniciaria na sua vida e assim o seu novo lançamento pedia uma sonoridade diferente do que ele vinha trazendo nos últimos anos.
Mac em entrevistas disse ter gravado material para pelo menos 5 álbuns diferentes até chegar no que ele realmente queria fazer e aqui ele nos apresenta uma mistura entre o Mac festeiro e descontriado das suas primeiras mixtapes com a mauridade do Mac introspectivo do Faces. Porém a grande diferença do GO:OD AM para o que o Mac estava trazendo anteriormente está nos instrumentais, onde aqui o Mac aposta em um trap mais comercial saindo do experimentalismo e indo para o que estava fazendo sucesso em 2013, apostando em um trap menos minimalista mas sim em batidas que são feitas para tocar em estádios para milhares de pessoas, com melodias nos refrões e uma estrutura mais clássica nas músicas com looping de samples e uma mixagem bem mais limpa. Alguns dos melhores trabalhos do Mac como produtor estão nesse disco, desde algumas inventividades como beats mais atmosféricos como em "Rush Hour" e "Time Flies", até traps mais diretos que são porradas como os beats de "Clubhouse" e "Cut The Check" e boombaps que lembram bastante a sua fase de rapper festeiro adolescente só que bem mais profissionais como é o single "100 Grandkids" e "Break The Law".
Outro ponto positivo é o quanto o Mac deixa os feats totalmente a vontade dentro do álbum. Ab- Soul faz um verso fantástico em "Two Matches", "Cut The Check" parece uma música do Chief Keef com o Mac de tanto que o beat combina perfeitamente com o Sosa que faz um dos seus melhores guest verses e olha que era bem difícil o Chief combinar com outros rappers, e claro temos a parceria perfeita entre ele e o Miguel no carro chefe do álbum que é "Weeknd" já mostrando o quanto o Mac fica a vontade no RnB com um refrão que não sai da cabeça do Miguel e o Mac harmonizando perfeitamente, pra mim essa música já é um grande indicativo desse lado mais melõdico e love song machine que o Mac iria investir no ano seguinte com o The Divine Feminine.
Liricamente o Mac ainda mostra bastante do seu lado introspectivo falando sobre a sua sobriedade recente, o medo de uma recaída e o sentimento de solidão que ainda está ali no canto do seu quarto todos os dias, mas principalmente o sentimento que o Mac trás nesse álbum é o de comemoração, ele conseguiu transformar uma gimmick temporária de rapper de faculdade em uma carreira de sucesso, ele saiu da sua fase mais obscura vivo e ele não poderia pedir mais. Durante as entrevistas que ele deu para promover esse álbum (e ele deu MUITAS) ele falou que esse era o seu álbum mais Jay Z no sentido em que ele não tinha muito subtexto, era aquilo ali mesmo, e que ele achava que a partir do momento em que ele saisse da sua casa ele não conseguiria sobreviver no mundo real, mas ai ele saiu e viu que a vida era bonita e ele quis trazer essa vibe para esse projeto, como se fosse ele acordando depois de um longo pesadelo que foi os últimos anos da sua vida com as drogas e agora ele queria celebrar a vida porque ele não queria ser apenas o cara das músicas com vibe negativa.
O Mac ainda consegue entregar bastante do seu material mis introspectivo principalmente na faixa "Perfect Circle/God Speed" que começa como uma música normal sobre o Mac falando como ele conquistou o rap game e como ele é um dos melhores do momento mas então temos uma virada de ritmo para a parte chamada God Speed em que ele fala sobre as pessoas conversando com ele sobre ele ter uma overdose como uma conversa mesma para ele então ele ter um momento de claridade sobre a sua situação e acordar dando bom dia na última linha da música. GO:OD AM é um álbum sobre estar vivo por escolha, não por acaso. Ele não romantiza o sofrimento nem apresenta uma cura definitiva. Aqui o Mac escreve a partir de um lugar de lucidez frágil, onde cada dia é uma vitória, mas também um risco. As faixas funcionam como capítulos de um processo de recuperação ainda em andamento e por isso a maioria delas são sobre conquistas que o rapper acumulou na sua carreira como respeito e uma vida em que ele não precisa se preocupar com dinheiro mais.
Outra coisa que eu tenho que ressaltar é o quanto o Mac está engraçado nesse álbum. Eu não consigo escrever todas as punchlines e barras super ridiculas que ele faz aqui, mas o que eu posso dizer é que eu fico dando risada toda vez que eu escuto esse disco e ouço ele fazer algumas das referências mais inesperadas possiveis como "eu estou matando esse jogo igual o Jeffrey Dahmer fez com os anos 80", "eu vim pelo bife e saí com toda a vaca" ou "eu saí e eles me chamaram de Shady, eu sou um rapper branco eles sempre me chamam de Shady eu não tenho ideia do que eu estou reclamando", eu sempre acho engraçado essa reflexão no final da barra como se ele realmente não tivesse ideia de porquê ele fica puto com isso. São punchlines bregas de propósito mas o carisma do Mac e o flow afiado dele simplesmente vende tudo.
Como eu já falei algumas vezes eu conheci o Mac Miller em 2017 e depois de escutar as músicas mais famosas dele que na época eram as da sua fase de 2009 o primeiro álbum que eu ouvi dele foi o GO:OD AM. Na época eu estava em um cursinho e eu escutei ele voltando para casa de ônibus e eu lembro de ter adorado tudo sobre ele logo de cara, eu dei risada com as punchines engraçadas, os beats eram inacreditáveis, muito a frente do tempo deles, eu amei a personalidade do Mac durante todo o álbum e eu posso dizer que foi o projeto que fez com que eu virasse um fã dele quase instantaneamente. Mas principalmente eu senti uma leveza escutando esse álbum em 2017, quase como se a vida ficasse mais colorida ouvindo ele, e o que eu pensei quando eu lembrei disso é que claro que parecia mais leve, a vida era mais leve, a minha vida em 2017 era diferente do que é hoje, muito mais fácil, mas então no final de 2025 quando eu fui fazer compras para o Natal eu aleatoriamente coloquei o GO:OD AM para mim ouvir e o resultado ainda foi o mesmo, pareceu que tudo ao meu redor estava mais leve.
Esse é o sentimento que eu tenho com o GO:OD AM, ele é um álbum para você se sentir bem e curtir a sua vibe, lembrar que a vida é cheia de momentos e fases ruins mas depois delas você acorda e as coisas melhoram. Se eu pudesse definir toda essa fase do Mac Miller tanto musicalmente quanto sua fase de vida me parecia que ele estava tentando encontrar o equilíbrio entre as coisas, e ele encontrou por um tempo, ele ficou sóbrio, entrou em uma relação estável e conseguiu fazer músicas sobre a vida como ela estava naquele seu momento, cheia de momentos bons. Claro que a história do Mac termina com ele perdendo o controle desse equilíbrio mas não é porque ele não conseguiu que nós não podemos, e GO:OD AM é para mim uma das grandes ferramentas que existe na música para lembrar o lado bom da vida e alcançar esse equilíbrio em que você vê as coisas ruins acontecendo e ainda assim continua acordando esperando um dia melhor, e por isso na minha casa esse disco sempre será um clássico.
E esse foi o artigo de hoje, eu sinto que estava devendo um artigo sobre o GO:OD AM porque além dele ser bem subestimado na discografia do Mac ele deve ser o álbum dele que eu mais ouvi, então pelo menos aqui ele está imortalizado em um texto. E por hoje é só isso, nos vemos no próximo artigo.

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