Minha Crítica: Flora Matos - FLOWRA FM - DISCO VOADOR 4


É difícil ser fã da Flora Matos.


Flora Matos está de volta. A rapper que tinha lançado seu último trabalho em 2021 prometia o seu comeback desde o ano passado, dizendo que seria ainda melhor que o Eletrocardiograma de 2017, que é considerado pela grande maioria o seu melhor trabalho e um clássico do rap nacional. Então depois de uma promoção feita inteira pela artista nas suas redes sociais usando muita IA o primeiro dos quatro discos que ela prometeu como parte de um novo conceito da sua carreira foi lançado, e eu tenho algumas opiniões sobre.

É difícil falar de Flora Matos sem falar de todas as polêmicas que envolvem ela. A saída do Laboratório Fantasma e a treta com o Emicida, a treta com o Delacruz, se ela é branca ou negra, e basicamente tudo que ela diz quando ela resolve abrir o X, antigo Twitter, mas vamos tentar não falar de nada disso, vamos falar da música. Aqui a Flora entrega uma metralhadora criativa de ideias, flows, e conceitos, o problema é como ela organiza tudo isso, e mais importante, em cima do que ela organiza.

Quando eu escrevi sobre o Gambino eu falei como eu acho interessante pessoas que são extremamente criativas, e a Flora é uma das artistas mais criativas em atividade na música brasileira. No álbum ela vai jogando flows diferentes uns dos outros, faz trap, boombap, drill, canta, rima em francês, e nesse quesito ela é impecável, a performance vocal dela continua sendo perfeita como sempre. Um exemplo é na polêmica faixa “MARIA BONITA SEM LAMPIÃO” que ela acha umas 4 métricas diferentes para o mesmo beat, é algo que só alguém que tem muita técnica consegue fazer, e algo que ainda está muito a frente da cena atual em que as vezes o rapper usa o mesmo flow no álbum todo.

Nas letras a Flora Matos fala sobre o seu assunto favorito: Flora Matos. O disco é uma grande discussão sobre o mito de quem é Flora Matos e o seu lugar dentro da cultura. Ela já começa com “DONA DO MEU FLOW (SINCE 2012)” em que ela basicamente fala como essas mulheres tão ai copiando o flow dela desde sempre, e isso é claramente pra Tasha e Tracie, o flow é exatamente o mesmo de “Amina”, provavelmente a faixa mais famosa da dupla, mas ai que ta o plot twist, porque essa música é uma regravação de 2012 como diz o título, então é basicamente a Flora acusando as irmãs de roubarem o flow dela. E como eu disse eu iria tentar não falar de polêmicas, mas é impossível porque a Flora quer falar de polêmicas, logo em seguida vem a já citada “MARIA BONITA SEM LAMPIÃO” que é uma indireta pro Emicida com a qual a Flora tem um desentendimento de longa data que daria uns três parágrafos para mim explicar, e aqui ela basicamente acusa ele de lamber a elite e de apenas pegar tretas com mulheres na linha "sempre que eu te vejo brigar, é com uma mulher. acho tão deprimente". No resto das músicas são expressões de identidade, legado, autoria, feminilidade, fama, e respeito daquele jeito bem Flora Matos de “eu sou a melhor coisa da terra e vocês só conseguem ser algo perto de mim me copiando”. Como eu disse é uma metralhadora criativa, e acho que isso é expressado bem pelos interlúdios “FLOWRA SCRATCH RÁDIO” 1 e 2 que é trocas de estações de rádios com trechos de músicas e discursos políticos, mostrando como a cabeça dela vai transitando de uma ideia para outra as vezes na mesma música.

Tudo isso é classic Flora Matos e seria ótimo, outro grande acerto da nossa Flowra, mas é ai que chegamos no grande problema desse álbum para mim: os beats desse álbum são uma merda. Tem um beat nesse disco todo que eu gostei muito que é em “FLOW ACADÊMICO”, aqui tudo funciona, flow impecável da Flora, uma letra muito sagaz, e um instrumental com uma mixagem ótima, não atoa é a mais tocada do álbum depois das que tem indiretas, mas tirando isso todas as faixas pra mim tem algum problema com o instrumental. Quando o instrumental é decente a mixagem ta horrível, quando a mixagem ta pelo menos ok o instrumental é ruim, e as vezes as duas coisas são ruins. Aqui eu vou pegar uma opinião do Visão Ampla que falou que não é porque a Flora é uma artista independente que ela precisa fazer tudo sozinha, e eu sei que tem bastante gente que trabalhou com ela aqui e está creditada no projeto, mas o que eu sinto com esse álbum é que ela pegou uns beat de graça no Youtube e rimou por cima com um daqueles microfones de fazer stream, ainda é uma rapper extremamente habilidosa rimando mas porra, a qualidade da música se perde toda porque no fim das contas uma letra merda nem sempre vai estragar um beat incrível, mas na maioria das vezes um beat merda estraga uma letra incrível.

Com o passar dos anos a Flora foi comparada com alguns dos grandes, e problemáticos, artistas da história, principalmente Kanye West e Lauryn Hill, mas pra mim esse álbum parece muito com o A Written Testimony do Jay Electronica, o talento está claramente ali mas ele ta enterrado em um monte de escolhas de instrumentais estranhas que fazem com que você não queria ouvir esse álbum mais vezes. 

E eu vou abrir um parágrafo aqui pra esse argumento do “é ruim de propósito” porque eu sei que tem a possibilidade de pelo menos um fã maluco da Flora Matos ler isso aqui, e eu entendo, eu sou um fã maluco do Kanye West também, quando ele tava usando o boné do Trump pra todo lado eu achava que era tudo um plano que iria resultar em um plot twist em forma de álbum e isso nunca aconteceu, então pow eu entendo. Então está tendo um argumento ai nas redes de que tudo isso é de propósito, o marketing todo de IA, a mixagem ruim, tudo isso é uma critica da Flora Matos ao estado atual do rap, e como o conceito desse disco e dos próximos funciona de trás pra frente esse disco seria o final ruim enquanto o resto seria o como chegamos a isso. E a esse argumento eu respondo: ok, e dai??? Você fazer um álbum ruim de propósito não isenta ele de continuar sendo ruim, ainda mais que se esse for o plano da Flora (o que eu duvido) é muita burrice, se essa for a sua primeira exposição a música da Flora você não vai voltar para ouvir os próximos três discos que sabe-se lá quando vai sair.

E isso tudo está vindo de alguém que gostou da ideia do disco, gostou dos flows, das letras e do conceito todo dele de rádio, mas que queria ter gostado muito mais do produto final. O pior é que eu consigo ver como esse disco poderia sim ter sido melhor que o Eletrocardiograma, porque você consegue enxergar o começo de um excelente projeto ali, mas para isso virar um grande clássico no rap nacional ela tinha que trabalhar com produtores bons, ter contatos que transformariam a sonoridade básica que é apresentada aqui em algo excepcional, ter amigos dentro da indústria musical é uma habilidade, quase um poder, e é um poder que ela não tem, porque a Flora se mostra cada vez mais afastada de todo mundo dentro da cena, e infelizmente ninguém faz algo excepcional completamente sozinho.

Para vocês que querem minhas indicações eu indico “FLOW ACADÊMICO”, “DONA DO MEU FLOW (SINCE 2012)” e “VAI APRENDER A RESPEITAR”. E eu espero que a Flora nunca leia nada disso porque ela me bloquearia no Twitter e eu amo ler os tweets dela. E essa é a gif que representa a minha reação ouvindo esse álbum:

Minha segurança eu faço na mão
Maria bonita sem um lampeão

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