Crianças veem fantasmas (as vezes)

Em 2018 Kanye West se isolou nas montanhas e de lá ele não voltou com mais conhecimento ou com uma verdade universal mas sim com 5 álbuns diferentes produzido por ele. Desses 5 o mais interessante deles era um disco de capa colorida elaborada por Takashi Murakami em que o Kanye colaborava com o seu amigo de longa data Kid Cudi. Faz quase 10 anos que esse álbum foi lançado e eu continuou ouvindo ele, e é por isso que hoje nesse blog o tema é Kids See Ghosts.


Nossa história não começa em 2018 mas sim mais de de 20 anos antes. Em 2006 um artista desconhecido chamado Kid Cudi mostrou o seu material para Kanye West após encontrar ele em uma loja de discos, a partir dali a arte do Kanye sempre estaria entrelaçada com a do Kid Cudi. Seu álbum de 2008 808s & Heartbreak teve muito da sonoridade do Cudi, que lançaria a sua grande estreia para o mainstream no ano seguinte com o clássico Man on the Moon: The End of Day lançado pela gravadora do Kanye, Good Music.

Entretanto dois artistas tão grandiosos e com personalidades tão difíceis claramente não teriam uma relação que seria apenas momentos bons. Em 2013 veio o primeiro baque na relação deles quando o Kid Cudi deixou a Good Music. Mas eles ainda estavam colaborando com frequência nos trabalhos uns dos outros. Em 2016 foi quando realmente a relação dos dois teve uma grande ruptura quando o Cudi em uma série de tweets criticou pessoas que, segundo ele, mantinham uma imagem de amizade enquanto, nos bastidores, existia competição e falsidade. Entre os nomes citados por ele estavam Kanye West e Drake. A situação ficou ainda mais complicada porque Cudi havia acabado de revelar publicamente que estava enfrentando problemas relacionados à depressão e pensamentos suicidas e se internou em uma clínica para tratar esses problemas. Enquanto a resposta do Drake a tudo isso foi fazer uma diss para Cudi, a do Kanye foi homenagear publicamente Cudi fazendo um discurso torcendo para a sua melhora antes de tocar “Father Stretch My Hands Pt. 1". Quando Cudi saiu da reabilitação ele mesmo se juntou no palco com o Kanye para cantar a música e dar um abraço emocionante no seu mentor. Porém no exato mesmo show que significava uma volta por cima mentalmente para Kid Cudi foi o começo do que seria o declínio mental de Kanye West. Pois foi nesse mesmo show ele meteu um discurso confuso e sem sentido por 15 minutos envolvendo diversas teorias malucas, até abandonar o palco. Após o incidente o Kanye teve um surto psicótico que resultou no cancelamento do resto da turnê e o artista ficando 9 dias internado, e de lá ele saiu com o seu diagnóstico de Bipolaridade.

Então avançamos para 2018 no que hoje é chamado de “Wyoming Sessions”. Depois de toda a crise de 2016, Kanye passou por um período de reconstrução artística. Ele estava procurando um ambiente completamente diferente de Los Angeles e Nova York. A ideia era tirar os artistas do ambiente habitual da indústria e colocá-los em um lugar isolado, trabalhando praticamente o tempo todo. Kanye havia comprado uma propriedade chamada Monster Lake Ranch, perto de Jackson Hole, e a transformou no centro de suas atividades criativas, tanto musicalmente quanto para a moda. Basicamente o cara foi para as montanhas fazer beat e chamou vários artistas para colaborar com ele. Kanye não estava apenas trabalhando em um projeto mas sim em cinco ao mesmo tempo, um álbum solo, um do Pusha T, um do Nas, um da Teyana Taylor e claro, um álbum colaborativo com Kid Cudi, todos com apenas 7 faixas. 

Em 1º de Julho de 2018 foi lançado o Ye e ele já era um spoiler dos temas que o Kids See Ghosts tocaria. No álbum Kanye fala pela primeira vez sobre a sua bipolaridade assim como outros assuntos pessoais como a sua relação com a sua, na época, esposa Kim Kardashian. E o disco inclusive tinha colaborações musicais do Kid Cudi em “No Mistakes” e “Ghost Town” que fecha o disco, essa que parece quase uma passagem de ônibus para a próxima parada, Kids See Ghosts. 

O disco chegou uma semana depois de Ye, e para mim pelo menos enquanto Ye era bem direto no seu ponto e na sua pegada, esse novo disco foi toda uma jornada para entender os seus temas e sonoridades.

O disco abre com “Feel The Love” com a participação de Pusha T, e eu vou dizer, um dos melhores versos convidados da carreira do rapper, ele traz toda aquela classe rimando sobre como ele é o traficante que virou rapper mais foda que você já conheceu em uma flow lento como se fosse uma conversa de negócios. O beat que antes era um tom atmosférico lento explode para o Kanye fazendo um beatbox transformando a sua voz em um instrumento dentro da batida enquanto Cudi grita no refrão que ainda pode sentir o amor. Uma combinação que tinha tudo para não funcionar mas funciona pois é o famigerado caos controlado, tudo está dentro daquela sonoridade no lugar que tinha que estar. E é uma abertura perfeita pois dá o tom da viagem que vai ser esse disco, uma mensagem de positividade em batidas insanas.

“Fire” que vem em seguida já é uma música mais tradicional de rap, em uma batida mais lenta e aqui é uma faixa para o Kid Cudi brilhar, pois ela tem uma pegada de rap atmosférico espiritual que sempre ronda os seus melhores trabalhos ao mesmo tempo que é psicodélico com os gritos dentro da batida. No seu verso Cudi rima sobre como ele rezou para Deus que tirasse toda a dor dele mas que agora com a sua família ele está vendo dias melhores, e o seu refrão cantando “Nessa estrada eu encontro, essas cicatrizes que deixei para trás, céus, elevem-me” fazendo aquelas harmonizações que apenas ele faz, é um dos pontos altos do disco. Enquanto isso Kanye em um verso curto fala sobre as pessoas leias que ficaram ao seu lado e que vai ser mais direto da sua mensagem. E a faixa encerra de maneira linda com um riff de violão acústico tocando por cima.

E disso nós vamos para Louis Prima. O Kanye sampleia "What Will Santa Claus Say (When He Finds Everybody Swingin')", gravação de 1936 da cantora, e ele consegue virar essa música natalina antiga em um trap em “4th Dimension”. E a música tem um tom bem macabro, tem risadas que parecem de fantasmas pela faixa inteira mesmo que os versos do Kanye e do Cudi sejam de ostentação as suas vidas. O Kanye mesmo no verso dele diz que essa é uma música tema de algo estranho, e isso é um tema recorrente na sua discografia, o Kanye fazer músicas temas para sentimentos específicos. Aqui é um dos auges da dupla no sample e nos flows, é uma música em uma pegada totalmente diferente do que você vai esperar de um trap misturando elementos antigos em uma roupagem nova, sem dúvida um dos grandes highlights do disco.

E ai nós vamos para a segunda parte de Ghost Town do álbum Ye, “Freeee (Ghost Town, Pt. 2)”. Como toda boa sequência ela é maior e mais extravagante, porque essa faixa é basicamente uma música de rock psicodélico com o Kanye gritando de forma bem extendida o refrão sobre estar livre que estava na música anterior. Existe um paralelo muito legal sobre a parte 1 e 2 aqui, porque enquanto a parte 1 era uma pessoa tentando sair de um lugar ruim se convencendo de que nada mais doía, aqui essa pessoa está afirmando em alto e bom tom que está livre, ela não se sente mais livre, ela está livre. Eu amo essa faixa porque ela é uma das mais estranhas do disco e mostra uma versatilidade gigante dos dois artistas, tanto vocalmente quanto em criar essa atmosfera que eu não lembro de ter escutado novamente no trabalho de nenhum dos dois, com uma faixa de rock otimista, inclusive é algo que eu adoraria ver eles explorando em uma sequência do disco.

E saímos disso para “Reborn”, talvez a música mais bonita do disco todo. Temos um piano, uma batida bem suave e a voz de Kid Cudi cantando que está renascido, ele seguiu em frente, continuou seguindo em frente hmmmmmmmm. Temos dois versos bem sinceros dos artistas aqui, Kanye rima sobre os seus últimos anos, como ele foi chamado de louco, que estava sem usar seus medicamentos, como o seu nome foi arrastado em vergonha mas que agora ele está pronto para dar a volta por cima, enquanto Cudi rima sobre a sua depressão, seus momentos ruins, como ele questionou seu propósito mas que agora ele sabe que a paz começa com ele. Eu sei porque por muito tempo muita gente tatuou o refrão dessa música, porque é impossível tirar ele da sua cabeça uma vez que você escuta.

“Kids See Ghosts” é quando todo o conceito do disco se encontra com o Cudi no refrão falando sobre como as crianças veem fantasmas as vezes. Basicamente a mensagem é que crianças normalmente veem coisas que adultos não conseguem, e como adultos são apenas crianças crescidas com traumas que vão nos seguindo pela vida esses fantasmas sempre vão seguir a gente, e nós temos que enfrenta-los alguma hora. Cudi em um verso introspectivo olha para si mesmo e os seus problemas relatando estar sem esperança nenhuma em um determinado momento da sua vida, enquanto Kanye no seu melhor e mais longo verso no disco monta uma timeline sobre como todos os seus problemas se correlacionaram com a pressão da fama e da sua arte, falando sobre a sua fé cristã e como ele está pronto para dar a volta por cima contra a mídia e seus críticos. A percussão da música é suave, quase como se os dois estivessem flutuando acima de tudo, é de longe uma das melhores performances desses dois juntos, com o refrão marcante do Cudi e o verso sincero do Kanye.

E por fim fechamos com “Cudi Montage” que utiliza um sample de uma gravação caseira de Kurt Cobain que foi lançada no material relacionado ao documentário Montage of Heck. E é um violão extremamente simples não é um solo super complexo, é só um cara tocando violão como se estivesse sozinho no quarto, e isso dá uma sensação de intimidade absurda. Esse acorde é transformado em uma batida atmosférica com o Cudi fazendo os seus hmmm hmmmmm clássicos em um refrão que reflete o cristianismo dos dois, pedindo para que Deus jogue sua luz sobre ele, e repetindo “continue forte”, enquanto Kanye no seu verso reflete sobre o ciclo de violência criado pela mentalidade de gangues na sua cidade e como todos podem aprender com os erros das outras pessoas no passado, assim como todos podem aprender com os erros dele mesmo. O disco então se encerra com o Cudi repetindo o mantra do disco de novo e de novo, “continue forte”.

O Ye foi um álbum que foi de fácil absorção para mim, na mesma hora eu entendi os temas que ele abordava, viciei nas músicas, na sonoridade, escutei de novo e de novo por uma semana, mas quando o Kids See Ghosts veio a minha primeira reação foi estranhar um pouco. Eu não conhecia tanto assim o trabalho do Kid Cudi, e eu estava acostumado a ver o Kanye ali do The Life Of Pablo nos últimos anos misturando trap com música gospel de coral. Então quando eu ouvi pela primeira vez esse disco esperando bangers e tive esse disco reflexivo com batidas mais intimistas e atmosféricas eu achei um pouco estranho, ainda assim tinha algo nesse álbum que fazia eu continuar ouvindo ele de novo e de novo, ao ponto em que em determinado momento eu deixe o Ye de lado para escutar mais e mais esse, até que finalmente o álbum clicou para mim.

Para mim o grande trunfo de Kids See Ghosts é criar um ambiente sonoro como se você estivesse indo visitar um mundo fora da terra toda vez que você escuta ele. Você não precisa saber da história pessoal do Kid Cudi ou do Kanye West, ou sequer saber qualquer coisa sobre eles para que esse disco te acerte. A produção do espaço acústico que Kanye e Cudi constroem junto com os mantras que são repetidos durante todo o disco sobre continuar e enfrentar os fantasmas que continuam aparecendo para assim renascer é o que torna esse projeto atemporal pra mim. Nós já vimos inúmeros projetos sobre saúde mental na música, mas ou eles são muito básicos ou são muito óbvios, ou só não parecem sinceros. Kanye e Cudi trazem um som autoral, misturando a vibe dos dois, com músicas que misturam trap com rap melódico com violão acústico e até rock para criar um universo acima das nuvens para que você possa ir toda vez que você precisar ouvir que nem todo problema é tão grande assim para quem está disposto a enfrenta- lo. Outro ponto foi que ele fez eu conhecer mais a fundo o trabalho do Kid Cudi que eu não escutava tanto e se tornou um dos meus artistas favoritos. 

Por isso KSG se tornou talvez o meu maior álbum de conforto de todos os tempos, até porque um dos grandes trunfos dele é que em um mundo de álbuns cada vez maiores para pegar mais streams ele tem 24 minutos, então você consegue ouvir ele fazendo qualquer tarefa básica do seu dia a dia.

Existem pessoas que dizem que para algo se tornar um clássico precisa se passar 10 ou até mesmo 20 ou 30 anos, mas para mim tudo isso ai é besteira, Kids See Ghosts se tornou um clássico a partir do momento em que todo o universo criado por esses dois artistas fez sentido pra mim e a sinapse na minha cabeça de todos os conceitos que ele traz aconteceu. Para mim sem dúvida um dos cinco melhores projetos do Kanye e um dos três melhores do Kid Cudi e sem querer eu estou postando isso em uma semana em que os dois fizeram as pazes pela décima quinta vez em um show em Chicago, ambos ainda estão vendo os fantasmas e ambos ainda estão tentando lutar contra eles da forma que conseguem, e assim é a vida, não tem um final de contos de fada, ela só continua e continua e vamos vivendo ela.


E esse foi o artigo de hoje, se tem algo que eu tentei alcançar com ele foi fazer você que está lendo escutar, ou se já escutou escutar de novo, Kids See Ghosts, é um desses álbuns atemporais que parece que foi lançado essa semana de tão único que é a sonoridade dele. E por hoje é só isso, nos vemos no próximo artigo.


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