CLÁSSICOS: Slipknot - Iowa


Slipknot é uma das bandas mais interessantes da leva de Nu Metal do final dos anos 90. Eles pegaram o mundo de surpresa ao trazer um som que misturava groove metal com música eletrônica e rap no seu primeiro disco de mesmo nome da banda em 1999. As sonoridades aliadas ao visual dos mascarados com macacão vermelho fizeram eles virarem um hit do dia pra noite, mas claro que mais dinheiro significa mais problemas. Então o que deveria ser uma comemoração do seu sucesso no seu segundo disco virou na verdade um processo torturante de raiva sendo expressada da sua forma mais pura no que é considerado o melhor disco do Slipknot e um dos melhores do metal dos anos 2000. Hoje no CLÁSSICOS vamos conhecer um pouco da história do álbum Iowa.


Depois do sucesso absurdo do álbum Slipknot (1999), a banda saiu de um grupo desconhecido para um dos maiores nomes do metal, só que esse sucesso trouxe consequências. Durante as turnês entre 1999 e 2001 todos estavam extremamente cansados de fazer show e uns dos outros, muitos membros enfrentavam dependência química e existia enorme pressão da gravadora para repetir o sucesso. No primeiro disco eles fizeram um pacto de se manterem sóbrios e se algum membro da banda fosse pego usando drogas ele seria expulso, depois do lançamento desse primeiro disco esse pacto foi para o espaço. A maioria dos membros usava drogas pesadas, o vocalista Corey Taylor afundou no alcoolismo, e segundo os relatos da época a banda mal se falava fora dos palcos. Foi dentro desse caos que eles resolveram pegar toda essa raiva que eles tinham, de si mesmos, uns dos outros e do mundo como um todo e fazer um álbum sobre isso. O produtor foi o mesmo do primeiro disco, o lendário Ross Robinson, mas ele entendeu exatamente o que a banda estava pedindo naquele momento, porque ao invés de seguir o que a gravadora estava pedindo, um álbum mais comercial e com aquelas aleatoriedades que o Nu Metal trazia ele resolveu registrar a evolução técnica a banda, fazendo um álbum menos puxado para o Nu Metal dos anos 90 e mais para um Death Metal dos anos 80 repaginado para os anos 2000.  O resultado é uma sonoridade muito mais brutal, técnica e claustrofóbica.

Nós abrimos com “(515)” que tem menos de 1 minuto e é uma introdução extremamente perturbadora, composta pelos gritos e choros de Sid Wilson em uma batida industrial. A gravação ocorreu logo após ele receber a notícia da morte de seu avô, e Ross Robinson decidiu registrar aquele momento de dor real. “People = Shit” é uma das músicas mais famosas do Slipknot e ela fala de forma bem direta sobre misantropia, a desilusão completa com a humanidade, e ela já apresenta esse novo Slipknot para o mundo, mais rápido, mais técnico em uma pegada hardcore metal. “Disasterpiece” continua com o som pesado, sendo essa talvez a música mais pesada em sonoridade da carreira da banda, ela vai pra um grindcore, a bateria do Joey Jordison está estourando no seu ouvido, os vocais do Corey estão animalescos, com gritos de desespero em uma letra que fala sobre destruir qualquer coisa a sua volta quase como se o eu lírico estivesse tendo um colapso mental, ela é tão pesada e em um nível de raiva tão alto que é uma das músicas mais difíceis da banda replicar ao vivo. “The Heretic Anthem” com seu clássico refrão "If you're 555 then i'm 666" é outra pedrada que caiu na graça dos fãs. “I Am Hated” é outra bem pessoal com o Corey tendo comentado que a música nasceu de sua percepção sobre a fama e a reação do público, ela fala sobre aceitar ser odiado porque era isso que ele pensava na época, que todo mundo odiava ele e não tinha nada que ele pudesse fazer. 

Porém obviamente que o disco ainda vai ter seus momentos mais acessíveis nos singles “My Pleague” e “Left Behind”. A primeira é mais melódica com uma estrutura mais tradicional com o que a banda já vinha fazendo antes, com um contraste entre versos agressivos e refrão limpo e foi a trilha sonora do primeiro Resident Evil. Já a segunda é uma das música mais conhecidas da banda, é um dos singles mais pesados que eles já lançaram e tem aquele refrão pegajoso que começa com o “and i close my eyes” e todo mundo que já teve sua fase no Nu Metal lembra dela, ainda mais por causa daquele clipe icónico do menino trabalhando no açougue inspirado nas dificuldades vividas por Corey Taylor durante sua juventude, incluindo períodos de pobreza extrema e abandono. 

Mas claro que a maior loucura feita para esse álbum ficaria para o final com a faixa- título. Ela é uma obra profundamente psicológica e perturbadora de 15 minutos. A letra descreve uma obsessão doentia e um relacionamento marcado por posse, isolamento e fusão entre amor, dor e morte, e ela começa lenta e vai crescendo e crescendo até acabar em uma grande explosão emocional. E a parte mais doida de tudo isso é que o Corey Taylor para gravar os seus vocais no estúdio ele, que estava embriagado, tirou as roupas e se cortou com cacos de vidro, ele acreditava que sentir dor física o ajudaria a acessar esse estado emocional, segundo ele você pode ouvir o som se escutar com um fone a música. Só por essa história já da pra entender como tava a mente do palhaço quando eles gravaram esse disco.



Por que é um clássico???
Poucos álbuns conseguiram atingir o equilíbrio entre sucesso comercial e radicalismo artístico como o Iowa. Quando a banda estava no seu pior, desgastada e completamente exausta de tudo, eles pegaram toda essa raiva e transformaram em arte, 14 faixas do melhor que eles poderiam fazer, com uma técnica super apurada em relação ao primeiro disco e letras que falam muito mesmo com letras mais abertas a interpretação, conseguindo condensar muito bem conceitos bem amplos como a raiva e a angústia. Isso faz com que o disco transmita uma intensidade difícil de reproduzir artificialmente, cada faixa parece carregar uma sensação real de desespero, isolamento e violência física e emocional, transformando o álbum em uma experiência tão impactante quanto desconfortável, porém não é um daqueles discos difíceis de se ouvir, porque ele é tão pesado que ao mesmo tempo que as letras sejam bem emocionais ele ainda é uma jornada bem divertida porque tem um som muito bem feito em uma produção bem crua que exalta ao máximo a qualidade de todos os músicos, fazendo você mexer a cabeça o tempo todo enquanto escuta aquelas porradas. De certa forma ao incorporar as influências de death metal, thrash metal, e hardcore sem abandonar completamente as características que tornaram o Slipknot famoso no seu início, eles amadureceram o próprio Nu Metal, saindo daquela coisa mais adolescente para um som que fãs antigos de metal também iriam gostar. Para mim facilmente o melhor álbum do Slipknot, e algo impossível deles e de qualquer outra banda replicar, porque ele é documental com sentimentos ali que não podem ser apenas emoluar.


O Legado Dele
A influência de Iowa ultrapassa o próprio Slipknot. O álbum mostrou que era possível combinar a agressividade do metal extremo com alcance comercial, abrindo caminho para uma geração de bandas que buscavam unir brutalidade, com letras emocionalmente intensas. Seu impacto pode ser percebido em bandas como Bring Me The Horizon, Suicide Silence, Whitechapel, Chelsea Grin, Tallah, Code Orange, Knocked Loose, além de influenciar artistas do metalcore e do deathcore que cresceram ouvindo o disco. Mesmo dentro do próprio Slipknot o Iowa se tornou o padrão pelo qual todos os trabalhos seguintes passaram a ser comparados. Sempre que a banda anuncia um novo álbum, os fãs e críticos inevitavelmente perguntam se ele será "tão pesado quanto Iowa". A própria banda já anunciou algumas vezes que o próximo projeto iria ser “tipo o Iowa” mas como eu escrevi antes é difícil para eles até mesmo reproduzir músicas do disco ao vivo, ainda mais difícil entrar de novo nesse estado para fazer algo assim. O guitarrista da banda Jim Root já comentou que perseguir aquela atmosfera é praticamente impossível, justamente porque ela nasceu de um momento único e irrepetível da vida do grupo.


Depois do lançamento do Iowa a banda teve que entrar na turnê do disco que durou do lançamento em 2001 até Agosto de 2002, e claro que os shows não fizeram nada bem para a saúde mental dos membros da banda comigo podendo fazer outro artigo só sobre as loucuras relatadas dessa turnê. Porém após o fim da turnê, o Slipknot entrou em um hiato pela primeira vez, em vez de seguir diretamente para um novo álbum, vários integrantes decidiram explorar projetos paralelos. Corey Taylor e Jim Root trouxeram o Stone Sour de volta, Joey Jordison passou a tocar com o Murderdolls, enquanto outros membros também se envolveram em novos trabalhos, e foi esses projetos paralelos que basicamente salvaram a banda de acabar porque eles precisavam de um tempo longe uns dos outros. Quando eles retornaram ao estúdio em 2003 para gravar o Vol. 3: (The Subliminal Verses), a mudança era evidente com eles explorando mais melodias e letras mais introspectivas. De lá pra cá membros da banda morreram, outros foram substituídos, eles lançaram álbuns explorando várias sonoridades diferentes, um eu até já cobri no blog, quem sabe no futuro eu cubra outros, mas fato é que para mim e para a maioria dos fãs Iowa continua vivendo como o clássico supremo da banda.

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