Dangerous: A Era Mais Subestimada do Michael Jackson


ESTAMOS EM MICHAEL JACKSON MANIA. Com o lançamento do filme do Michael estamos vendo uma nova geração descobrir as músicas e clipes do artista, as suas faixas clássicas subindo para o topo do Spotify e basicamente os novos e os velhos fãs celebrando o seu legado. E eu que sempre fui um gigantesco fanboy do 01 da música vou aproveitar todo esse hype para falar de um álbum que eu sempre quis, pois eu o considero o mais underrated da carreira dele. Então venha comigo ver a criação, os temas, e os conceitos explorados no oitavo álbum do MJ, DANGEROUS.


Depois de fazer back to back to back sucessos por quase uma década, a primeira grande mudança que o Dangerous traz é que esse é o primeiro disco do Michael após a sua saída da Montown sem o lendário produtor Quincy Jones. O Michael queria sair daquela pegada synth pop e trazer sua música para os anos 90 e esse disco é uma mistura de vários gêneros mas a principal pegada que ele introduz é o new jack swing. Esse gênero, que surgiu no final dos anos 80 consiste na fusão entre o RnB tradicional e batidas de hip-hop, criando um som mais urbano e eletrônico o new jack swing introduz ritmos “quebrados”, com batidas intensas e repetidas como se fossem porradas sonoras no seu ouvido. O Michael não foi o primeiro Jackson a usar esse novo ritmo, a Janet fez o seu grande clássico Rhythm Nation 1814 em cima dessas batidas em 1989 e o MJ pegou bastante dos conceitos da sua irmã aqui, que havia feito um álbum bastante urbano e com muitas críticas sociais nas letras. Então o Michael trouxe o pioneiro do gênero Teddy Riley para coproduzir o disco junto com ele e o outro produtor Bill Bottrell que por mais que fosse mais associado ao pop tradicional ajudou em deixar as experimentações do disco mais coesas.

Mas claro que esse disco não é apenas new jack swing. Se tem algo que o Dangerous faz que não está nos outros clássicos do Michael é uma mistura de ritmos. Aqui o artista passa pelo rap, rock, funk, RnB, e arrisca coisas vocalmente que não tinhamos visto dele antes, como beatbox, um flow de rap oitentista aos moldes de um Public Enemy, ele também alterna entre um vocal contido, quase sussurrado, e explosões emocionais intensas com uma voz gritada, com uma entrega mais crua e rouca, quase “rasgando” a voz, dialogando diretamente com a estética do rock, com aquele controle técnico impressionante que só o Michael conseguiria fazer. 

Toda essa invocação de explosão sonora são apresentadas no single que também é a primeira faixa do disco "Jam". Com uma explosão de vidro como se o Stone Cold fosse entrar vem uma porrada de new jack swing, e o Michael com um flow mais rítmico e fragmentado, quase conversando com a batida. As frases são curtas, encaixadas no groove, e cheias de ataques vocais secos. Para então termos um verso do rapper Heavy D posicionando a faixa diretamente dentro de uma estética que, até então, não era central na obra do MJ. O rap estava oficialmente dentro do arsenal de ritmos do Michael Jackson e estava encaixando perfeitamente.

“In the Closet”  é outro ponto alto do álbum, quase sempre é lembrada pelos fãs como um dos melhores não singles da carreira dele. A batida é hipnótica, e o vocal de Michael trabalha muito mais com sussurros, nuances do que com a sua potência. Isso cria dentro da música uma atmosfera mais íntima e quase misteriosa, inclusive todo o conteúdo lírico é sobre essa relação de segredo com essa mulher misteriosa. É com certeza uma das melhores músicas de romance dele. 

“Give In to Me” leva o álbum para um território claramente influenciado pelo hard rock que estava bombando no final dos anos 80, principalmente o Guns N' Roses, não atoa temos na guitarra aqui ninguém menos que o Slash. Aqui o Michael abandona o polimento do pop oitentista e adota uma abordagem mais crua e intensa, com vocais mais rasgados e carregados de emoção. A música vai se construindo como uma explosão, não seria errado dizer que essa era a música mais pesada que ele tinha feito até então, porque é uma porrada de rock que ainda soa bastante como Michael Jackson mas também com o rock mainstream da época.

“Heal The World” surge como a grande faixa humanitária do álbum. Diferente das faixas mais urbanas e agressivas, aqui temos uma volta a uma construção mais tradicional, com melodia lenta e arranjos mais suaves. O Michael adota aquele vocal mais limpo e emocional que ele fazia tão bem, quase didático, buscando transmitir uma mensagem universal de paz e empatia. Isso inclusive marca uma mudança nessas faixas humanitárias que ele vai fazendo depois de Dangerous, porque enquanto "Man In The Mirror" do Bad era mais introspectiva para olharmos para nós mesmos e fazermos a diferença, "Heal The World" fala sobre o mundo todo se unir. A mensagem não é mais “mude a si mesmo”, mas “vamos mudar o mundo juntos”. E essa faixa que é o embrião que mais tarde inspiraria as clássicas "Earth Song" e "They Don't Cara About Us".

E claro que tudo isso vai se fundir em "Black Or White" que é o carro chefe do disco e uma das músicas mais famosas do Michael. Na verdade eu acho que ela condensa toda a ideia desse álbum, que não é exatamente um disco conceitual, mas a ideia com essa mistura de gêneros e temas é unir todos pela linguagem da música. E tanto na música quanto no clipe o Michael traz isso misturando um riff de rock com o seu pop característico e um verso de rap no meio que tinha tudo para parecer fora de lugar mas dentro da mixagem ficou perfeito dentro da música. E claro a letra é bem direta na sua mensagem antirracista que também é expressada de várias formas no clipe com o Michael aparecendo em diversos lugares e aquela cena das pessoas se convergindo umas nas outras. Basicamente ele simplifica a comunicação para alcançar o maior público possível, sem abrir mão do seu posicionamento social. É quase um manifesto universal embalado como hit global, o que explica seu impacto e fama até os dias de hoje, eu nunca vi ninguém falando mal dessa track.

A faixa-título fecha muito bem o álbum, eu sei que tem muita gente que não gosta dessa música porque falam que ela é longa demais e se arrasta, mas pra mim se uma música é boa e continua sendo boa por 7 minutos eu não me incomodo dela continaur indo e indo. "Dangerous" é talvez o momento em que o Michael leva mais longe a proposta estética do disco, não só como som, mas como conceito. Se outras músicas apresentam ideias específicas, aqui tudo aparece fundido e levado ao extremo, criando uma sensação de excesso, são camadas de batidas em cima de uma atmosfera quase industrial. O Michael dá todo o ritmo para a faixa com seus vocais, principalmente com o refrão que é super pegajoso. A letra também segue essa lógica, em vez de uma narrativa linear, a música gira em torno da ideia de uma atração perigosa, quase obsessiva. Basicamente é uma música experimental super longa do Michael que ao mesmo tempo é extremamente dançante e eu adoro.

Mas claro que eu deixei a minha favorita para falar no final. Eu amo "Remember The Time" com todas as minhas forças. A batida é uma mistura do new jack swing com um rnb noventista mais melodico, os sintetizadores são sensacionais, enquanto o groove segura toda a estrutura da música com precisão. A letra é outra música amorosa sobre lembrar de quando o eu lírico e uma mulher se apaixonaram, nada demais na letra, mas o Michael arrasa na performance vocal dele, principalmente naquele refrão e para mim o ponto alto da música e do disco todo é aquele final em que ele entra em um modo quase de improviso e ele vai gritando "do you remember? do you? do you?" e ele mete UM DOS BEATBOX MAIS IRADOS QUE EU JÁ OUVI EM TODA A MINHA VIDA. Aquilo é absurdo e muita gente nem percebe o nível técnico ali. Em vez de terminar a música ele praticamente desconstrói a faixa, a bateria some e ele recria o ritmo com a própria boca, se isso não é uma coisa de GOAT eu não sei o que é.



Esteticamente eu também acho que essa era é muito underrated. Ele não viralizou nenhum look como as jaquetas de "Thriller" ou "Beat It" ou aquele visual cheio de brilhos de "Billie Jean", mas ainda assim ele fez alguns dos mehores clipes e apresentações da sua carreira durante essa época. Em “Remember the Time”, por exemplo, ele cria um Egito estilizado, luxuoso e coreografado, misturando história, fantasia e cultura pop, e melhor, todas as figuras egípsias no clipe são negras. Em “Jam”, a estética é totalmente urbana, temos uma quadra de basquete, grafite pra todo lado, e ninguém mais do que Michael Jordan jogando basquete com o outro MJ. Então me pega um pouco que o único clipe dessa era que é amplamente estourado, comentado e analisado seja o de "Black Or White", porque eu acho esses dois com mensagens tão interessantes quanto e com bastante personalidade.

A capa do álbum talvez seja o maior símbolo dessa era. Criada por Mark Ryden, ela é cheia de elementos escondidos, referências circenses, olhos, máscaras, animais e símbolos. É quase um quebra-cabeça visual. Isso traduz perfeitamente o que é Dangerous.

E claro temos as apresentações. O Super Bowl XXVII halftime show faz totalmente parte dessa era e talvez seja o momento mais icônico dela. Aquela entrada dele, simplesmente parado por quase dois minutos, e depois tomando mais minutos para tirar os óculos escuros, já mostra o nível de AURA que essa versão dele tinha. Depois, a performance misturando músicas como “Jam” com “Billie Jean” e terminando com “Heal the World”, conectando o lado urbano com o humanitário. Visualmente, é algo grandioso, com multidões formando um mosaico no estádio, esse show basicamente redefiniu o que é um halftime show até hoje e pra mim continua sendo o melhor show de intervalo da história.

E claro, tivemos a Dangerous World Tour entre 1992 e 93 que quebrou inúmeros recordes e passou por mais de 27 países inclusive o nosso Brasil, com dois shows no Morumbi em 15 e 17 de Outubro de 1993. Foi nessa turnê que o Michael começou a fazer aquela entrada de sair do chão e farmar aura parado enquanto os fãs gritavam, foi também durante essa turnê que ele começou a fazer o "The Lean" que é aquele truque anti gravidade que ele faz em "Smooth Criminal". Então assim, muita coisa que a gente ama ver o Michael fazer ao vivo são dessa turnê que para muitos é a sua melhor. 


Quando eu escutei Dangerous o Michael já tinha morrido. Basicamente a morte dele fez surgir um relançamento de toda a discografia dele na banca do lado da minha casa que eu comprava cd e dvd pirata, e assim eu comprei Dangerous conhecendo apenas "Black Or White" e "Remember The Time" na tracklist e quando eu coloquei aquele cd e ouvi "Jam" eu fiquei completamente maluco com o que eu tava ouvindo, porque era muito diferente, muito agressivo e eu adorei. Eu já era bastante fã de rock na época e era quase como se e tivesse achado o equilíbrio perfeito entre o gênero que eu curtia e o artista que eu adorava desde sempre, então eu grudei no som de casa e as mais de uma hora do álbum passaram voando. Nas próximas semanas eu ouvia Dangerous de novo e de novo ao ponto em que por um determinado tempo ele era o meu ãlbum favorito do MJ. 

Quando ele foi lançado a crítica foi divisiva como ela não era com uma obra do Michael a muito tempo. Uma parte elogiou a mistura de elementos, a tentativa de fazer algo ainda mais grandioso que seus últimos trabalhos, e os temas sociais que ele tocou. Porém muitos criticaram o disco por ser cansativo, tendo mais de 1 hora, muitas músicas terem estruturas muito iguais, uma repetição sonora do new jack swing, e basicamente ele não ser tão coeso quanto Thriller. E eu entendo todas essas críticas mas como você pode ver no comercial desse álbum dirigido pelo David Lynch, Dangerous foi concebido para ser desse jeito mesmo, estranho, excessivo, um liquidificador de ideias ligado no máximo. E talvez seja exatamente por isso que Dangerous seja tão subestimado. Ele não foi feito para ser confortável ou o "melhor das faixas gravadas" como Thriller, mas para ser absorvido aos poucos, quase como um universo próprio. Seu excesso, sua falta de linearidade e sua mistura de estilos não são falhas ao meu ver, mas reflexos de uma proposta artística que buscava traduzir um mundo cada vez mais acelerado e fragmentado que foi toda a década de 90. Com o tempo muitas das escolhas que foram criticadas passaram a soar visionárias. Hoje em uma era em que o pop dialoga diretamente com o hip-hop e a mistura de gêneros é uma regra, Dangerous se revelou menos como um capítulo estranho na carreira do Michael e mais como um ponto de transição essencial de um momento da sua carreira para o próximo, como um antes e depois. Então ele é um álbum que não apenas acompanhou o seu tempo, mas ajudou a moldar o que viria depois para o Michael e para o pop que entrou em toda uma fase de mistura com ritmos urbanos nos anos 90.

Hoje Dangerous não é mais o meu álbum favorito do Michael, mas eu não vou falar também onde ele está posicionado porque isso vai ficar para o meu Do Melhor ao Pior do rei do pop que vai sair um dia, o que eu posso dizer é que eu acho ele no mesmo nível ou até melhor do que Bad e eu ainda tenho um carinho muito grande por ele. Então se você é um desses novos fãs surgindo com o filme ou alguém que não revisita a discografia dele a muito tempo, vai escutar Dangerous que vale muito a pena. E eu não costumo meter o referências bibliográficas aqui mas eu peguei muitas informaçoes para escrever isso aqui no documentário "Michael Jackson: Dangerous 30" do canal The Detail que é quase uma biblia no youtube sobre a carreira do Michael, então se você curtiu saber sobre o álbum vai lá ver o documentário proque tem um monte de informações que eu não coloquei aqui, como por exemplo que "In The Closet" era para ser um dueto com a Madonna. E por hoje é só, continue vivendo sua vida perigosamente e até o próximo artigo.



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