The Fall Off tinha alguma chance?


Eu estou conflituoso. Desde que o tão aguardado último álbum do J. Cole foi lançado no dia 6 de Fevereiro desse ano eu estou reflexivo sobre esse projeto, não sobre a qualidade dele, esse artigo não é sobre isso, esse álbum é MUITO bom, mas ouvindo ele de novo e de novo eu fico me perguntando se ele é essa expressão do que de melhor teve na carreira do rapper, se ele tinha uma chance de expressar isso para começo de conversa e qual é o legado do Cole para o rap em um contexto geral. Hoje, exatamente 1 mês depois do lançamento do álbum eu vou refletir sobre esses questionamentos que passam pela minha cabeça e também pela cabeça de vários fãs de rap.


Mas antes da gente falar especificamente sobre o The Fall Off a gente tem que falar de toda a promoção para esse álbum. Acredite se quiser a primeira menção a ideia e ao nome desse projeto datam de 2016, os famosos singles "Everybody Dies" e "False Prophets" deveriam estar nesse disco e o conceito foi trazido pelo rapper por estar com um bloqueio criativo na época, então ele estava caindo dentro do mainstream da música depois de emplacar grandes álbuns no inicio da década de 2010.

Porém o álbum seguinte do rapper que foi lançado em 2018 foi o KOD que tinha uma pegada de crítica ao mumble rappers da época e toda essa cultura de glamourização de drogas e auto destruição, com a última música do disco sendo a "1985 (The Introduction To The Fall Off)" dando indícios de que o seu próximo disco seria o Fall Off, porém todo o conteúdo lírico dessa faixa não tinha nenhuma indicação do que seria esse disco, já que a música é ele aconselhando os trappers daquela geração a investir seu dinheiro poris uma hora eles iriam sair dos holofotes (o que acabou acontecendo mesmo).

Logo depois tivemos a gigante "Middle Child" outro banger do rapper que também deveria estar no Fall Off lançada em 2019, porém só teriamos menção novamente a esse projeto em Dezembro de 2020 quando ele disse estar entrando oficialmente na era do The Fall Off anunciando uma série de projetos que terminaria nesse último disco. Em 2021 ele lança The Off Season que é um disco mais descontraído com menos conceitos e mais barras mas que seria as férias do rapper antes do The Fall Off. e nos últimos quatro anos o rapper continuou fazendo campanha para esse eventual álbum, ele dizia que seria como se o Jay Z tivesse lançado The Reasonable Doubt por último, já que esse é o álbum de estréia do Jay e é considerado seu melhor, que esse seria o seu último trabalho e ele sairia com chave de ouro com um disco que serviria como uma explicação de quem foi J. Cole para o mundo do rap nessas últimas 3 décadas. No meio do caminho tivemos a guerra do Big 3 entre o Cole, Kendrick Lamar e Drake que terminou com o Cole se desculpando e se retirando da treta depois da péssima recepção da sua diss "7 Minute Drill", para muitos fãs isso machucou muito o legado dele dentro do rap e a  única coisa que poderia recuperar a sua reputação era o The Fall Off ser tudo que o J. Cole estava falando que ele seria a 10 anos.


Como eu disse no dia 6 de Fevereiro o Fall Off viu a luz do dia e como já era esperado ele é um álbum conceitual. The Fall Off é um álbum duplo com o primeiro sendo o disco 29 e ele retrata o J. Cole voltando a sua cidade natal aos 29 anos, no começo da sua fama dentro do mainstream do rap dividido entre os três amores da sua vida: sua mulher, seu trabalho e a cidade em que ele cresceu. E o segundo disco que é o disco 39 retrata o J. Cole uma década depois retornando novamente para a sua cidade natal bem mais maduro e bem mais em paz consigo mesmo e com as escolhas que ele fez nesses dez anos de carreira. 

The Fall Off é um álbum sobre introspeção e achar a sua paz interior dentro de um ambiente que faz de tudo para te transformar em um monstro,. No primeiro disco Cole rima cheio de confiança sobre o seu dinheiro e como os seus amigos de infãncia estão distantes dele por inveja mas ao mesmo tempo como ele se sente distante de tudo, como o sucesso não está dando a felicidade que ele achou que teria ao voltar para a Carolina do Norte com a última faixa dessa parte sendo a "Lonely At The Top" que como o nome sugere mostra o rapper se sentindo sozinho no topo, vulneravel ao invés de vitorioso. Enquanto a segunda parte do disco já assume um lado bem mais reflexivo, com o Cole inclusive abordando a guerra civil do Big 3 e como ele é visto depois disso, usando técnica para reafirmar que a sua posição no rap game continua intocável, e assim Cole traça versos sobre a vida e como ele escolheu sair de um estilo de vida vazio para dar valor ao que ele hoje aos 41 anos considera importante para ele, familía e ser um ícone para a sua cidade para que as pessoas que saíram da onde ele saiu possam se inspirar nele.

Falando apenas de grandes momentos das faixas para mim o grande momento é o "The Fall Off Is Inevitable" onde o J. Cole rima toda a sua vida em ordem reversa usando as mesmas quatro silabas de rimas na estrutura da música inteira, vocês tem noção do quanto deve ser dificil escrever isso??? "WHO TF IZ U" é um trap do Cole bem naquele estilo mais mainstream bem ostentador e tal e funcionsa. E inclusive o Cole dentro do álbum faz um remake da clássica faixa do Common "I Used To Love H.E.R" em que ele se refere metaforicamente ao rap como se fosse uma mulher que ele amava mas hoje não reconhece mais, com o Cole aqui usando essa metáfora do rap como uma mulher para marcar o seu inicio imaturo, para a desilução com o rap e por fim a reconciliçao, tudo muito bem escrito. Para mim os grandes momentos do álbum estão na storytelling, tem várias histórias pelo álbum que acabam ensinando alguma lição ou causando alguma reflexão para o rapper através da sua jornada pelo disco.


Porém o que me deixou conflituoso em relação a esse álbum é que por mais que eu tenha achado ele muito bom, e sim, ele vai estar bem alto na minha lista de álbuns de final de ano, eu não sei se ele vai ser esse clássico que o J. Cole disse que ele seria sendo bem sincero e nem acho esse o melhor álbum da carreira do rapper, então para mim vai ser bem dificil ele envelhecer como "se o J. Cole tivesse deixado o melhor para o final". E ai vem a pergunta título desse artigo, será que esse álbum tinha a chance de ser isso??? Um disco que ficou dez anos sendo hypado, mudou várias vezes de conceito, teve singles que deveriam estar no disco e eram completamente destoantes um do outro, e no meio de tudo isso o Cole acabou tomando um dos grandes Ls do rap ao entrar e se desculpar de uma treta em tempo recorde, o que apenas só aumentou a expectativa que esse disco tinha que ser um clássico instantâneo para colocar ele na mesma prateleira dos seus companheiros de Big 3.

E a resposta para essas perguntas é que provavelmente ele nunca teve chance de ser tudo isso. Quando você coloca tanto hype em cima de alguma coisa as expectaivas em torno disso acabam ficando irreais. Talvez o caso mais famoso disso na música foi o Chinese Democracy do Guns N Roses que ficou 15 anos em produçáo, mas dentro do rap nós tiivemos o Detox do Dr. Dre anunciado em 2002 que de tanto ser adiado acabou sendro transformado no Compton ede 2015 que os fãs também receberam como se não tivesse valido a longa espera por não ser um clássico. Então o The Fall Off tinha que ser essa porrada na cultura, um clássico instantâneo que seria falado pelo ano todo nos moldes de um Good Kid, Maad City ou um IGOR, e na minha opinião ele não chegou nem perto desse nivel de impacto, tanto que meio que as pessoas já não estão falando mais dele nesse momento.

E isso nos leva ao papel do J. Cole dentro do rap, porque os maiores fãs dele constumam ver ele como esse cara super inteligente, uma figura intelectual dentro do gênero que está lá para trazer letras mais complexas enquanto toda a cena fala de dinheiro e mulheres, e os maiores haters do J. Cole veem ele como esse cara pretencioso pseudointelectual que faz letras básicas sem nenhuma verdadeira substãncia por trás diferente dos grandes nomes do rap lírico como Nas e o próprio Kendrick. E eu que gosto bastante do Cole mas não sou um ultra fã acho que ele nem quer ser visto como esse cara super inteligente, na verdade ele parece apenas um cara super tranquilo na dele, o cara é casado desde 2015, tem dois filhos, já está na casa dos 40 anos, eu tenho certeza que ele só quer rimar sobre as coisas que ele gosta, o amor dele pelo rap, sua familia, e sua cidade, as letras dele não são extremamente complexas porque elas não são para ser, essa é a expectativa do público sobre ele mas nunca foi algo que ele prometeu que seria o seu foco.

Então a culpa desse álbum talvez estar decepcionando algumas pessoas por não ser o melhor disco do J. Cole e nem o melhor álbum de 2026 até o momento é em parte culpa dos fãs mas também culpa de todo esse hype que o Cole escolheu colocar todos esse anos nesse disco, porque sendo sincero por mais que eu tenha gostado do projeto ele não é tão diferente assim do que já vimos na discografia do rapper, toda essa narrativa sobre a sua cidade natal já está no 2014 Forest Hill Drive (seu verdadeiro melhor álbum), essa dualidade entre o lado bom e ruim da fama e análise de legado está em Born Sinner, e as músicas mais descontraídas também parecem bastante com o que foi feito no The Off Season. Então como um álbum que pega um apanhado de ideias passadas do Cole o disco funciona bem, como um álbum que traz essas ideias no seu melhor como uma gigante celebração do seu legado eu já não acho tanto. É um dos três melhores álbuns dele com certeza mas não o álbum que define tudo o que ele é, e talvez essa seja a sua grande queda no fim das contas, alguém que não consegue sair dessa segunda pateleira do rap para a primeira. Mas não quer dizer que ele ainda não possa ser, porque todos sabemos que esse negócio de álbum de aposentadoria é palhaçada, todo rapper já fez isso e todos eles voltam menos de 5 anos depois, então fiquem tranquilos que a gente ainda vai ver muito do J. Cole por ai.


E no geral é isso o artigo de hoje, se você ainda não escutou eu indico que você escute o The Fall Off e forme suas próprias opiniões sobre ele, principalmente se você é fã do J. Cole ou fã de rap noventista no estilo do Common e Mos Def, e lembrando que essas são as minhas opiniões sobre o disco um mês depois dele sair, pode ser que no final de ano ele clique para mim de forma diferente como um clássico e esteja no meu primeiro lugar, porque música é assim, as vezes nossa percepção sobre ela muda. Até o próximo artigo que deve ser uma crítica de uma grandes supresas que eu tive em 2026. Até lá.

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