Quando o Rage Against The Machine virou hit de Natal


Normalmente os meus artigos aqui no blog são sobre minhas opiniões sobre singles e álbuns, mas eu tambem gosto de contar histórias envolvendo momentos musicais que eu acho interessantes ou únicas, e a de hoje além de ser essas duas coisas também tem a temática de Natal para combinar com o mês de Dezembro. Então hoje venha conhecer a história sobre como o Rage Against The Machine salvou o Natal do Reino Unido de um reality show musical sem graça.


Em 1992 a banda Rage Against The Machine lança o seu primeiro single na carreira "Killing In The Name", uma critica a brutalidade policial e ao racismo inspirado nos disturbios de Los Angeles que aconteceram no mesmo ano. Porém embora hoje essa seja a música que define a banda tendo o dobro de views da segunda música mais escutada da banda no spotify ela não foi esse gigantesto hit quando ela lançou. Ela apenas ficou em vigésimo quinto nas paradas do Reino Unido, e a sua melhor colocação foi na Australia onde ela pegou o sétimo lugar. Porém em 2009 uma campanha inusitada conseguiu fazer essa música disputar o podium de música mais comprada no Natal do Reino Unido daquele ano.


As paradas de Natal do Reino Unido são uma coisa bem importante lá porque normalmente quem pega o primeiro lugar na semana de Natal tem a música mais vendida do ano todo, e isso fez os artistas perceberem essa oportunidade e começarem a produzir singles de Natal, isso começou nos anos 70 qando a banda de Glam Rock Slade lançou "Merry Xmas 2 Everybody" em 1973 e garantiu o primeiro lugar nas paradas de fim de ano. Assim músicas com temas de Natal ou caridade meio que se tornaram regulares como singles número 1 no fim de ano britânico, até que em 2005 uma nova trend começou a aparecer, e tudo graças a um programa de TV chamado X Factor. O reality show de 2004 virou um grande fenomêno global e em 2005 o vencedor daquele ano Shayne Ward lançou o seu primeiro single logo após a sua vitória "That's My Goal" assegurando o primeiro lugar da semana de Natal. Logo o programa e os seus vencedores entenderam que essa era uma fórmula para vender muita música no fim de ano. O vencedor do programa então que tinha seu final perto de Dezembro já lançava um single sempre próximo da semana de Natal e vencia o primeiro lugar com números astronômicos. 

Porém claro que isso gerava bastante criticas de pessoas que acreditavam que basicamente o programa estava artificialmente tentando forjar um grande hit usando a vitória de um competidor que em meses ninguém nem iria lembrar que existiu e assim conseguir lucrar mais e mais com músicas pops esqueciveis e seguras que sempre pareciam exatamente a mesma coisa. Em 2008 um DJ de meio periodo apaixonado por música chamado Jon Morter tentou barrar a vencedora daquele ano do X Factor Alexandra Burquer de conseguir o primeiro lugar com um cover (muito ruim aliás) de "Hallelujah" com a ultimate música meme "Never Gonna Give You Up" do Rick Astley, ele então fez uma campanha para a compra desse single, e embora ele tenha conseguido colocar a música no top 100 das paradas ainda ficou muito longe de vencer a Alexandra que garantiu o primeiro lugar com um dos singles natalinos mais vendidos na história do Reino Unido.


Em 2009 tudo estava se encaminhando para mais uma vitória de um vencedor do X Factor, dessa vez Joe McElderry com seu single "The Climb", porém Jon Morter não se abateu com o fracasso do ano anterior, na verdade ele ficou mais motivado, ele só precisava da música certa, e qual música melhor do que uma que literalmente diz "vai se fuder, eu não vou fazer o que você estã me dizendo". Então ele se uniu com a sua esposa e lançou uma campanha no facebook com um texto que dizia "Cansado do novo ato de karaokê de Simon Cowell estando em primeiro lugar no Natal? Pois eu também... Então quem está comigo em a gente comprar em massa a faixa 'KIlling In The Name' no dia 13 de Dezembro (NÃO COMPREM AINDA) como um protesto a monotonia do X Factor?". Por algum motivo, talvez pela mensagem de rebelação da música, ou o sentimento de indignação com o X Factor que sempre foi percebido como um produto plastificado musical, a campanha ganhou muita atenção, com a página criadora tendo mais de 1 milhão de seguidores em algumas semanas depois da publicação do texto. Tom Morello, guitarrista do próprio Rage Against The Machine entrou na campanha apoiando os fãs britânicos a comprarem o single e prometendo inclusive um show gratuito lá caso o primeiro lugar viesse, Dave Grohl e até mesmo Paul McCartney foram outros que apoiaram a campanha, ficou bem claro que existia uma chance real desse single que havia sido lançado a mais de dez anos ser o single de Natal daquele ano.
 

No dia 17 de Dezembro a famosa BBC impulsionados pela campanha chamou o Rage Against The Machine para tocar "Killing In The Name" ao vivo no seu estúdio, a emissora só tinha um pedido: que eles não utlizassem palavrões durante a apresentação, sim, por mais irônico que seja, em uma campanha que todo o tema era sobre não fazer o que um monópolio queria em uma música que literalmente te diz que não vai fazer o que você esta mandando, a BBC achou que seria uma boa ideia pedir isso. Zack De La Rocha então começa a música censurando os palavrões mas claro que quando a música vai chegando no seu build up Zack grita a pelnos pulmões "FUCK YOU I WON'T DO WHAT YOU TELL ME" enquanto você consegue ver a BBC tentando cortar o microfone dele ao vivo mas não adiantando de nada, em um dos momentos mais épicos da história da música. A apresentação viralizou e foi o combustivel que faltava para a campanha pegar fogo de vez na semana de Natal, quase como um caos perfeito.

Então no dia 20 de Dezembro saem os resultados e por uma margem de 50 mil compras a mais RAGE AGAINST THE MACHINE VENCE O X FACTOR E SE TORNA O HIT NÚMERO 1 DA SEMANA DE NATAL DO REINO UNIDO. Como foi prometido a banda retornou ao Reino Unido em 2010 no Finsbury Park para um show gratuito para 40 mil pessoas com ingressos sorteados online, o show foi batizado de "The Rage Factor", no começo do show Zack entra com um cartaz escrito "VOCÊS FIZERAM A HISTÓRIA" e claro o ápice do show foi "Killing In The Name" que foi cantada em coro por todos os fãs presentes.

Ao longo dos anos muitas tentativas de replicar a campanha do "Killing In The Name" foram realizadas no Reino Unido com singles famosos antigos, em 2010 com "Surfin Bird", em 2011 com "Smells Like Teen Spirit", 2012 com "Highway To Hell", todas chegando bem perto e até entrando no top 5 mas não vencendo o campeão do X Factor, até que em 2018 um youtuber que faz paródias músicas sobre rolinhos de salcinha chamado Ladbaby desbanca o X Factor novamente e conseguiu fazer disso uma nova trend vencendo o primeiro lugar pelos próximos quatro anos contra o X Factor acabando de vez com a hegemonia deles. Porém nenhuma campanha foi tão histórica quanto a do Rage Against The Machine em 2009 ao ponto de mobilizar tanto fãs quanto musicos.  


Uma frase que eu ouvi uma vez na minha série favorita de todas que se chama Community é que o significado do Natal é acreditar que ele tem algum significado, e é muito louco pensar que em 2009 meio milhão de pessoas se uniram para comprar uma música de 1992 simplesmente porque elas estavam de saco cheio de uma padronização em massa de um monopólio, e isso transformou uma banda como o Rage Against The Machine que não tem nada a ver com a época de fim de ano na coisa mais natalina possivel naquele momento. A vitória de 2009 não foi apenas musical, foi uma afirmação cultural de que o público desejava recuperar sua autonomia diante de um sistema previsível e altamente comercializado, e essa história inteira não apenas parece um milagre de natal como tem um roteiro completo daqueles filmes de natal que passavam na Sessão da Tarde durante o mês de dezembro, logo era a hora perfeita para aparecer aqui, e eu vou cravar que é a minha história envolvendo música e natal favorita de todas. Acho que eu ainda apareço aqui no blog antes do top melhores álbuns do ano, mas caso eu não apareceça nós nos vemos lá, COME WITH IT NOW.

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