Bate Cabeça Ladrão - 10 Anos de Sulícidio


“Como é que você nunca ouviu falar?”. Agora em agosto fazem 10 anos que uma das faixas mais icônicas da história do rap nacional foi lançada. Baco Exu do Blues e Diomedes Chinaski em 4 minutos mudaram completamente toda a cena do que vinha sendo o rap nos últimos anos. Todos já falaram ou escreveram sobre o que foi Sulicídio nesses 10 anos, mas está faltando eu. Então hoje eu vou passar pelas histórias, temáticas e impacto que teve a maior diss já lançada em território brasileiro.


O cenário do rap em 2016 era muito diferente do que vemos hoje, basicamente existiam 3 grupos que estavam pautando completamente a sonoridade dentro do rap, eram eles o Costal Gold e o Haikaiss que eram da banca do Damassaclan em São Paulo e o Oriente no Rio, e as temáticas das músicas deles eram músicas acústicas de amor e faixas com punchlines aleatórias. Em 2015 eu já acompanhava bastante Batalha do Tanque e de lá saíram muitos nomes que dominariam o rap nos próximos anos, mas se você pegar as primeiras músicas do Orochi dentro do Modestiaparte, ou as do Pelé Milflows com a Questione ou até mesmo o Choice que se tornaria um prodígio em 2017, a primeira música dele com o Samurai é uma love song aos moldes desse grupo. Então até o que seria as “categorias de base” do rap estavam fazendo as mesmas músicas com a mesma fórmula e parecia que o futuro seria a gente ouvir “Sem Graça” de novo e de novo apenas com vozes diferentes. Outra coisa é que basicamente toda a concentração do mainstream do rap estava no eixo Rio-Sâo Paulo, quando a gente ouvia algo diferente de love songs acústicas vinham de nomes que já tinham se consagrado antes como o Emicida, Rashid, Funkero e Dalsin, e todos eram paulistas ou cariocas. Então quando parecia que esse seria o destino do rap brasileiro pelo resto da década a bomba caiu…


“Quem não jogar o corpo prum lado e pro outro. E sair do chão, vai morrer na saída”. A música começa de maneira icónica com o trecho de um dvd do grupo de pagode de Salvador A Bronkka chamada “Um Tiro”, uma das músicas mais explicitas deles que fala abertamente sobre cheirar cocaína com o refrão “Pega o prato faz a linha. Dá um tiro na farinha”, na época essa música causou uma polêmica gigante com o governo da Bahia e com os próprios fãs. Essa é a mensagem que os dois rappers querem passar com essa intro, essa não é uma música confortável que você deveria amar, eles estavam prestes a ser muito polêmicos e irritar muita gente e eles não ligavam.

“Bate cabeça ladrão, é Oldisgraça e Chave Mestra, rap sujo probidão”. Poucos refrões foram tão efetivos em colocar você na vibe da música dentro do rap nacional quanto esse. Citando o nome dos coletivos que os rappers faziam parte (o primeiro do Baco e o segundo do Diomedes) mandando você bater cabeça como se estivesse em um show de rock e avisando que esse rap seria sujo diferente das coisas family friendly que estavam estourando dentro da cena naquele momento. O negócio simplesmente fica na sua cabeça.

“Como é que você nunca ouviu falar nos bruxos lendários do Norte?”. Aqui abre o verso do Diomedes com essa lendária frase, questionando o público como eles nunca ouviram falar de todas as lendas do rap vindas do lado norte do nosso país, uma frase que não apenas resume todo o sentimento dessa música como eu acho que é uma das frases mais memoráveis da história do rap nacional. 

E já que estamos falando sobre bruxos lendários a gente pode admitir que o verso do Diomedes é extremamente superior ao do Baco??? A gente já vai falar da parte do Baco mas eu sinto que enquanto o rapper baiano está se esforçando pra ser o mais polêmico possível o Diomedes está realmente apresentando argumentos sólidos para a tese dele aqui. Eu sinto que todas as frases e momentos que todo mundo lembra de Sulicídio ou vem do refrão ou vem desse verso específico do Diomedes e como ele vai fazendo comparativos entre artistas do Nordestes e artistas do eixo Rio- São Paulo e como eles são liricamente muito melhores. 

Da menção direta a treta dele com o Nocivo Shomon falando que apenas com ele era pessoal ao “Ret arrotou, Don L matou” e “o dobro do que Dalsin fez, Chinaski já fez mais de uma vez” o Chinaski provava que ele estava vindo para atirar na cabeça da cena. E eram referencias que você tinha que estar acompanhando a cena para entender, então eram quase easter eggs para quem escutou a música onde o Don L claramente criticou o verso merda do próprio Filipe Ret na mesma música, ou a música em que o Dalsin dizia que para falar dele primeiro faz o dobro que ele fez.


“Seu MC favorito fala muito na internet”. Na verdade eu exagerei em falar que ninguém lembra de nada da parte do Baco a não ser a polêmica, porque esse começo também é uma puta frase foda que foi reusada de novo e de novo pelo Baco e outros rappers. Mas depois disso como eu falei eu acho que é um verso que no geral envelheceu muito mal porque é umas tiradas meio edgy humor 2016 no sentido “deixa eu falar a coisa mais ofensiva possível pra mostrar que eu sou hardcore”. A frase depois dessa acima é “seu MC favorito compra coca e paga com boquete” e é dai pra pior. 

Na verdade é por causa da frase seguinte que essa música não está mais nos streamings de forma legal, porque logo em seguida ele diz “não é comendo traveco que se vira fenômeno” e até usa um efeito sonoro do Zina falando Ronaldo, e hoje em dia é de senso comum que a palavra “traveco” é extremamente ofensiva. Mas pra ser sincero ninguém deu a mínima pra isso na época, essa ainda não era uma discussão que era tão mainstream assim, principalmente dentro do rap. A parte que realmente causou bastante polêmica foi quando ele disse “Meu rap é agressivo. Mandei algumas fãs soropositivo pro seu camarim” o que até nos reacts da época a galera achou que foi um negocio desnecessário de rimar. É sério, apenas com essas rimas você consegue ver o quanto esse verso envelheceu mal e é bizarro ouvir isso em 2026. 

Mas sendo justo ele encerra bem com a linha “Aprenda a diferença de One Direction pra Um Só Caminho” que é uma menção ao lema do Marechal que traduzido seria o mesmo nome da boy band One Direction, então é uma forma bem sagaz de dizer “nós podemos parecer mas não somos a mesma coisa”.

“Eu sou o patrão da vida loka. Eu sou patrão da vida loka. Antes eu andava na boca do povo. Hoje o povo é que anda na minha boca”. E pra encerrar o outro da música se encerra com um sample da música “Patrão da Vida Loka”, da banda de pagode baiano Ghetto é Ghetto, que por muitos anos tiveram uma rivalidade direta com o A Bronkka, incluindo diss tracks entre eles como a famosa “Só curto Chiclete se for com banana” da Bronkka fazendo uma referência ao cantor do Ghetto é Ghetto que tem a alcunha de Chiclete Ferreira. Então nada mais Nordeste do que começar e encerrar a música com músicas de grupos de pagodes baianos que se odiavam. Perfeição.


Imediatamente após o lançamento da música no Youtube ela explodiu como nada de mcs “desconhecidos” fazia na comunidade do rap brasileiro. Principalmente o lançamento de Sulicídio coincidiu com o começo de canais de reacts de rap no Youtube como o FalatuZetre e o Duzz e de uma forma de retroalimentação tanto eles ajudaram a faixa a se expandir mais como a faixa ajudou eles a conseguirem mais números ainda, porque era uma música tão visceral que era perfeita para esse tipo de conteúdo, ainda mais quando você tem o contexto das pessoas que eles estão citando como era o caso desses criadores de conteúdos que também eram rappers. 

As primeiras respostas a Sulicídio, obviamente, vieram em forma de diss tracks. Os primeiros a entrarem no ringue foi o Costa Gold, que são citados brevemente pelo Diomedes na linha “Ainda bem que não sou Don Cesão, irmão e nunca invejei o flow de Nog”. Então na faixa “SulTáVivo!” a dupla mostra que não entendeu a mensagem de Sulicídio fazendo uma faixa inteira que gira em torno do argumento de “eu tenho mais fãs e mais fama que vocês” sendo que é exatamente esse o ponto de Sulicídio, a falta de espaço para artistas do Nordeste. O verso do Predella em si é um dos piores que eu já ouvi pra uma resposta com a linha “Eu tenho quatro discos, mil hits e você não tem nem quatro músicas”. Essa faixa ajudou mais o argumento do Diomedes de que existia uma diferença absurda na qualidade de caneta dele pros mcs da época do que ajudou o Costa Gold a provar qualquer ponto.

Um que se saiu melhor foi o Nocivo Shomon que lançou a resposta “Disscarrego”. Aqui ele sai do argumento da falta de visibilidade pro Nordeste e foca mais nas ideias erradas que o Baco estava soltando no verso dele. Principalmente eu acho perfeita a resposta “Aids avança, devora esperança, criança no estado vegetativo e esses prego ainda faz piada com mina soropositivo” para aquela polêmica linha do Baco. Ele também foca bastante no ponto que enquanto eles querem mais fama o rap de verdade para a comunidade está se perdendo na linha “se mata pra ter camarim, fama e as dama de passarela mas quem se mobíliza pos evento na favela?”. No geral é um diss bem competente mas eu tenho problemas com ela, principalmente por ela ser muito longo. Eu não acho que uma diss resposta tem que ter 7 minutos porque em determinado momento é só ele rimando o mesmo ponto de novo e de novo com outras palavras. Eu também não gosto da linha “Joga em nóis a culpa do anonimato, do teu som tão chato com essa voz de pato” porque 1 minuto depois ele vai falar de xenofobia e não seria super xenofobico falar do sotaque de alguém??? Enfim, ainda é uma boa diss só talvez não seja tão necessária.

E a resposta da dupla pra tudo isso veio no Rap Box na “CypherBox 1” junto com a lenda Rapadura e o Nissin da Oriente (eu nunca entendi porque o Nissin ta nessa música, o verso dele não tem nada a ver com nada). E essa faixa inteira poderia ser outro artigo, principalmente o verso do Rapadura que é primoroso, mas a dupla também vem com bons argumentos de que Sulicidio foi um ataque a estrutura do rap e não a alguém especifico. O próprio verso do Baco eu acho bem melhor nessa música do que na Sulicidio, inclusive é nessa que ele lança a tão famosa “Amam mc’s e não o Hip Hop”. E o Rapadura é tão foda que ele termina a música com “Se o Brasil é arvore que exponha sua matriz, Nordeste quebra o mármore por sempre foi sua raiz. Negar isso é burrice, tolice de todo um país. Sem disse me disse, pois depois disso não tem mais diss” e depois disso não teve mais diss mesmo, o cara basicamente encerrou a discussão só com o poder de um verso.


Sulicídio foi a música certa no momento certo. Eu não acho que apenas uma coisa causou o Ano Lírico de 2017, foi um conjunto de fatores, mas com certeza essa faixa foi um desses fatores. Pouco tempo depois de Sulicídio lançar os mineiros da DV Tribo fizeram a sua clássica faixa “Diáspora” no Rap Box que tornaria o Djonga uma sensação e abriria as portas para ele participar de outros diversos projetos nos próximos meses. Ao mesmo tempo um jovem de Brasília com o vulgo de Froid estava crescendo cada vez mais e participaria do projeto Favela Vive em Setembro daquele ano que seria o impulso para o seu primeiro trabalho solo no ano seguinte. Em Dezembro do mesmo ano Djonga, aliado com os cariocas BK, Sant e Jxnas se juntavam com o mc de Brasilia Menestrel para fazer o Poetas no Topo, e para iniciar a faixa tínhamos um verso icónico de um catarinense chamado Makalister. De uma hora para a outra o rap estava olhando para todos os estados do Brasil, conhecendo formas diferentes de rimar, os mcs de batalha começando a fazer músicas, e assim um novo movimento se formava na rap brasileiro que nos deu alguns dos melhores nomes da história do género, e alguns projetos que apresentaram rappers novos para todo um novo público, até as cyphers foram algo que se popularizaram nessa época e transformaram  nomes como Xamã e Chris em potências.

Os próprios Baco e Diomedes continuaram gigantes depois disso, embora de formas diferentes. Em 2017 Baco lançou o disco Esú, que eu particularmente acho um clássico supremo do rap nacional, um álbum perfeito, e em 2018 Diomedes lançou a mixtape Comunista Rico que também é outro trabalho que está imprimido na história do nosso rap. Com o tempo o Baco foi se colocando mais e mais no mainstream e hoje ele basicamente apenas faz love songs, enquanto o Diomedes continua fazendo o mesmo estilo de rap mais introspetivo e falando de problemas sociais do Nordeste. Os dois também participaram da maioria dos grandes projetos do rap que seriam lançados no futuro, o Diomedes foi o Perfil número 1 da Pinneaple, e o Baco foi o Perfil número 5. Diomedes participou da segunda edição do Poesia Acústica e o Baco esteve em Poetas no Topo 2, inclusive falamos de Ano Lírico e é dele esse termo, quando na sua parte no Poetas no Topo ele diz “2017 é o Ano Lírico seis tão fudido”, e é exatamente isso que foi, uma competição de quem conseguia fazer uma letra melhor do que a que havia sido lançada dias antes, foi uma época muito boa para ser fã de rap nacional. Fora a influência que as linhas da música tiveram em outras faixas, é impossível contar quantas pessoas usaram alguma versão de “Seu MC favorito fala muito na Internet” ou “amam MC’s e não o Hip Hop” nos anos seguintes.


Eu lembro exatamente da primeira vez que eu ouvi Sulicidio, soava como algo que eu nunca tinha ouvido antes, foi uma experiência única de se viver na época. Eu mesmo era uma das pessoas que escutava Costa Gold e Haikaiss e gostava e ainda gosto de algumas músicas, mas também estava de saco cheio do mesmo estilo em todo lugar. Então ver essa mudança de paradigma acontecendo na minha frente foi algo que eu penso que nunca mais vou testemunhar em solo brasileiro, porque foi apenas depois de Baco Exu Do Blues e Diomedes Chinaski que eu conheci um rap de fora de São Paulo/Rio e eles mudaram tanto a cena ao ponto que hoje o Matuê, um rapper de Fortaleza, é o mais escutado do Brasil, nada disso seria possível se dois mc’s não tivessem a coragem de meter o louco, chutar o balde e causar a mudança necessária para colocar a cena de cabeça pra baixo a 10 anos atrás. 

E essa é a minha homenagem a Sulicídio. Se vocês quiserem saber o que eu indico dos dois mcs, eu com certeza indico Esú e o álbum seguinte Bluesman do Baco, além das faixas “999”, “Tropicália”, “Sujismundo” e a participação dele na faixa “$port$ujo” do Matheus Coringa. E do Diomedes eu indico a mixtape Comunista Rico, e as faixas “Camisa 10”, “O Aprendiz” e “Quando a Dor Te Puxar”, além do seu perfil na Pinneaple chamada “Tipo Maçom” e sua participação no projeto Orgânico do Rap Box chamado “Olhos Negros”. E por hoje é só isso, até o próximo artigo.


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