As vezes uma história por trás de um disco é mais interessante do que o resultado final desse disco, e hoje eu vou falar sobre uma dessas histórias. Marvin Gaye, conhecido como uma das vozes mais marcantes da soul music com músicas sobre curtir o que tem de bom na vida e até com críticas sociais sobre como os Estados Unidos tratavam questóes como pobreza e violência resolveu embarcar em uma jornada introspectiva dentro das razões pela qual o seu casamento não deu certo e isso se transformou no seu décimo quarto álbum.
Em 1978 você pensaria que a vida de Marvin Gaye estava as mil maravilhas se você olhar apenas a discografia dele, em 1971 ele lança o que para muitos é a sua obra prima, What's Going On, um álbum conceitual sobre um veterano do Vietnã que retorna aos Estados Unidos e se depara com todos os problemas sociais que o país está enfrentando, um disco que tirou ele de apenas mais um ato de soul para um artista elogiado que poderia navegar em diversas abordagens musicais. E ele seguiu essa sequência com outros discos que são considerados clássicos como a trilha sonora Trouble Man, Let's Get It On e I Want You (meu álbum favorito dele), porém se estava tudo as mil maravilhas musicalmente o mesmo não se podia dizer na vida pessoal do cantor.
Em 1975 Marvin se separou da sua esposa Anna Gordy Gaye, irmã de Berry Gordy, fundador da Motown Records. As razões pela separação assim como qualquer separação de casal não se resumem a apenas um fator, mas sim a vários. Marvin era um notório viciado em cocaína, aparentemente gastando 500 dólares por dia no seu vício, ele também traía a sua esposa com frequência e segundo amigos próximos dele o cantor tinha um vício em pornografia, tendo uma coleção gigante de filmes pronográficos que imagino eu deveria ser bem dificil de adquitir nos anos 70. Já o cantor alegava que a sua esposa era uma compradora compulsiva, falava que ela usava o seu filho para fazer chantagem emocional com ele e claro, existia ali uma dinâmica de poder entre os dois já que ela era irmã de uma figura importante da gravadora que ele fazia parte. Os dois se separaram mas todo o gasto excessivo fez o Marvin Gaye ficar sem dinheiro para custear o divórcio e pagar a pensão para o filho deles, ele tentou fazer uma turnê na época mas que não levantou o dinheiro necessário para pagar toda a sua divida. Então prestes a ir para a cadeia Marvin Gaye e seu advogado fizeram um acordo com Anna em que metade dos lucros do seu próximo disco iriam para ela.
Obviamente o cantor não ficou nada feliz em ter que trabalhar pra caramba em um disco para sua esposa ficar com metade de tudo. Porém de vez de fazer um álbum conceitual como What's Going On ou um álbum sensual cheio de grandes hits como Let's Get In On, ele resolveu fazer um álbum inteiro sobre o seu divórcio, indo a fundo na dinâmica do casal e tentando desvendar o que deu errado ali, e a esse disco ele deu um título irônico de Here, My Dear que em traduçáo fica aqui, minha querida, como se ele estivesse falando "você queria ganhar dinheiro com isso? Então aqui está".
O disco começa com a faixa- título que inicia com ele falando "eu acho que eu preciso dizer que... esse álbum é dedicado a você". A faixa funciona como um verdadeiro prefácio irônico, no qual Marvin Gaye deixa evidente que o álbum nasce de uma obrigação legal, mas ao mesmo tempo, ressignifica essa situação ao transformá-la em um gesto artístico sofisticado. A letra assume um tom sarcasticamente cordial, como se o artista estivesse, de fato, “entregando” o disco à ex-esposa, em uma espécie de resposta ao processo de divórcio. Em contraste com esse conteúdo carregado de ambivalência, a construção musical aqui é bem suave e elegante, evidenciando o refinamento sonoro que sempre foi a sua marca. Desde o início, portanto, são estabelecidos os principais eixos temas do álbum: amor, dinheiro e muito ressentimento.
Depois nós temos quase uma viagem no tempo para o início com "I Met a Little Girl" onde ele conta como conheceu a sua ex-esposa, o que fez ele se interessar por ela e como ele achou que esse amor duraria para sempre, interpolando inclusive um áudio do padre casando eles em 1964.
Logo depois chegamos a peça central do disco que foi pensada pelo cantor para ser o carro chefe e principal single do disco, tanto que ele é apresentado em três versões no disco (na original, instrumental e reprise) “When Did You Stop Loving Me, When Did I Stop Loving You”. A estrtura da música é longa e repetitiva, como um transe e na letra o cantor detalhe a ascensão e a queda do seu relcionamento. Pelos 6 minutos ele se pergunta o que deu errado, lembra os seus votos de casamento, expressa ressentimento da sua esposa por ter colcoado ele na justiça e repete de novo e de novo quando foi que ela parou de amar ele e quando foi que ele parou de amar ela, sem obter uma resposta clara.
Em "Anger" Marvin reflete sobre a raiva e como ela destrói qualquer decisão que você vai tomar. O tom da música é de conselho mesmo, com ele alertando como a raiva corrompe a alma e como esse sentimento destruiu a sua vida.
Logo depois temos uma virada de chave nas tracks onde ele deixa um pouco de lado toda a sua angústia com o seu relacionamento e admite que todas as coisas no mundo, todas as decisões da humanidade existem por causa do amor e todos precisam de amor nas suas vidas em "Everybody Needs Love" e depois confronta a sua mortalidade, seus defeitos e pecados e admite para si mesmo que ta na hora de recuperar o controle da sua vida em "Time To Get It Together". Essa seção do disco termina em "Sparrow" que é nome de uma espécie de pardal. O cantor faz um paralelo entre o seu processo criativo em escrever músicas sobre amor com esse passáro que parou de cantar e o que ele pode fazer para recuperar essa paixão dentro dele.
Vamos então para "Anna's Song" que é talvez a música mais direta do álbum porque ela tem o nome da sua ex e é explicitamente sobre o relacionamento deles, com o cantor sendo o mais sarcástico possivel sobre os "bons momentos" na relação dos dois, com um foco especial no estilo de vida luxoso que ela desfrutou enquanto estava com ele como se fosse a única coisa que importava para ela, os bens materiais.
Ai a gente vai para a música mais bizarra do álbum "A Funky Space Reincarnation", onde ele imagina um encontro com a sua ex 2000 anos no futuro, onde a música dele transcendeu raça e identidade e mesmo assim eles não conseguem escapar um do outro como se fosse o destino, e eles fumariam alguma nova droga do futuro e fariam amor em Vênus. É uma música bem psicodélica e quase dissociativa como se ele estivesse escapando da realidade em uma fantasia sem sentido.
Depois temos "You Can Leave, But It's Going To Cost You", o que já é um nome maluco para se dar para uma track e é basicamente o Marvin Gaye falando que a sua ex está fazendo tudo isso apenas para se vingar da sua felicidade ao tentar te tirar seu dinheiro, falando que enquanto ela arranja advogados ele apenas quer ficar livre.
E assim chegamos a última música (antes da reprise de “When Did You Stop Loving Me, When Did I Stop Loving You”), o final da jornada com "Falling In Love Again", onde depois de refletir sobre tudo o que deu errado no seu relacionamento e nos seus próprios erros e o que ele precisa melhorar para recuperar a sua vida e a sua carreira o cantor fala sobre o seu novo amor, Janis Hunter, a sua nova namorada que ele conheceu enquanto estava se separando da sua esposa, e com quem ele se casou logo depois que o seu divórcio foi oficializado em 1977 (antes desse disco ser lançado), com ele falando que por mais que ele foi machucado pela sua relação anterior ele tentaria fazer dar certo tudo de novo com a sua nova amada em nome do amor (spoiler: eles também se separaram em 1979).
Com o tempo Here, My Dear começou a ter uma revalorização crítica. A crítica contemporânea costuma enxergar o disco como um marco do chamado “confessionalismo musical”, uma forma de composição em que o artista transforma experiências íntimas e dolorosas em material artístico sem tentar suavizá-las para agradar o público. Nesse sentido, o álbum é frequentemente comparado a obras que utilizam vulnerabilidade emocional como foco central da sua narrativa, antecipando tendências que se tornariam muito comuns décadas depois como o 808s & Heartbreak do Kanye West e o Lemonade da Beyoncè. E eu consigo entender exatamente o porquê dessa revalorização crítica.
Quando eu ouvi falar da história desse disco imediatamente eu quis ouvir e a minha impressão ouvindo ele é como se aquela cena do jantar em Hereditário durasse 1 hora e 15 minutos ao invés de apenas 4, como se eu não não devesse estar ouvindo aquilo, como se dois namorados que também são seus amigos começassem a discutir e eu estou no carro com eles e eu não posso descer, é bem dificil de ouvir mas é dai que vem toda a sua beleza. Arte nem sempre é para ser algo vindo de um lugar de dor mas é inegável que algumas das obras mais impactantes da história foram produzidas justamente a partir de experiências de sofrimento, perda e conflito emocional. Em muitos casos a criação artística funciona como uma forma de elaboração psíquica, permitindo que sentimentos difíceis sejam reorganizados e transformados em linguagem simbólica. Esse é o caso de Here, My Dear, que conseguiu pegar todos esses sentimentos da dor do divórcio, o ressentimento e a exaustão emocional e transformar em expressão artistíca expondo todas as contradições que uma mente humana confusa pode gerar sem nenhum filtro bonitinho por trás, está ali cru, como um acidente de carro que você não consegue não parar para ver. Here, My Dear não é meu álbum favorito do Marvin Gaye, não acho que seja uma expressão de quem ele era como artista e como ele gostaria de ser lembrado mas é um mergulho muito interessante em uma da mentes musicais mais complexas dos anos 70 e por isso eu com certeza recomendo para qualquer um que seja fã do Marvin Gaye, de álbuns de términos e de música no geral.
Depois do Here, My Dear, Marvin, contra todos os prognóstios, conseguiu alguma estabilidade financeira. Ele deixou a Motown em 1981, em 1982 ele lançou o disco Midnight Love onde ele emplacou o hit "Sexual Healing", uma das suas músicas mais conhecidas que é escutada até hoje, apresentando o seu nome para todo um novo público nos anos 80 e até vencendo dois grammys. Porém quando parecia que Marvin estava prestes a entrar em um segundo auge a sua vida foi interrompida aos 44 anos quando ele foi assassinado pelo seu próprio pai em 1984 com dois tiros, mas essa história vai ficar para outro artigo, esse acaba por aqui.

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