Tudo seria muito mais fácil se o álbum fosse ruim.
Eu não costumo escrever dois "minhas críticas" em sequência mas aconteceu algo que balançou o mundo do rap e da música no geral, Kanye West lançou um álbum sem nenhuma controvérsia por trás. Se você sabe quem é Kanye West você sabe tudo o que ele fez de controverso nos últimos anos, eu não vou citar essas coisas aqui porque ai todo o artigo seria sobre isso, mas ele fez coisas tão absurdas e imperdoáveis que eu mesmo esperava que jamais veríamos qualquer música normal dele de novo e ele iria morrer em uma espiral de mania da bipolaridade combinada com o narcisismo dele, mas não, dia 28 de Março o disco lançou, com atraso de apenas algumas horas do anunciado, e abaixo está o que eu achei dele.
Sempre que eu escuto um novo álbum do Kanye eu gosto de saber qual foi a ideia por trás dele. O Kanye não é bem um cara de álbuns conceituais mas sempre existe uma ideia central sobre o que ele está fazendo, seja a coisa do jovem adulto escolhendo a música ao invés da faculdade, a espiritualidade, ou a relação com a figura dele mesmo. Aqui o conceito de Bully que é apoiado pelo mini filme estrelando o filho do rapper Saint West (que também é o rosto da capa) batendo em vários lutadores mascarados usando uma marreta de plástico, segundo o próprio artista essa ideia veio quando ele viu o seu filho batendo em uma outra criança por ser fraca. Então a ideia aqui é falar sobre os valentões do mundo, do ponto de vista do Kanye tendo sido esse valentão nos últimos... a vida toda dele basicamente, mas também como ele foi intimidado e estava se sentindo completamente solitário morando no Japão onde ele tinha que trabalhar na sua música sozinho por estar longe de Los Angeles. Então é um disco que alterna entre o ponto de vista do agressor e a vitima.
Então é nesse contexto que chegamos ao Bully em sua versão final, abrimos com "KING" em que ele reflete sobre a sua carreira, seus erros e como ele foi vilanizado pela mídia mas também como ele vilanizou várias figuras e grupos, inclusive é um paralelo da "KING" do Vultures 1 em que ele fala sobre como ele continua sendo um rei mesmo com todas as polêmicas. E o conteúdo lírico do disco gravita em torno desses tópicos já apresentados na primeira faixa, com ele falando sobre altos e baixos da sua fama, questionando se está repetindo os erros do seu pai e sendo um bom pai em "FATHER", assim como o seu relacionamento amoroso com a sua nova esposa em "BEAUTY AND THE BEAST", e claro todo o backlash que todos os seus episódios de mania causaram nos últimos anos em diversas faixas e embora ele não se extenda muito nesse assunto o que ele traz aqui é uma mensagem de amor, ele mesmo já disse que queria ser um instrumento de cura para todos que machucou e toda a vibe do álbum é ele falando de espalhar mais amor no mundo como é na faixa que até agora todos estão elegendo como a melhor do disco "ALL THE LOVE".
Porém o grande detalhe desse álbum está no seu instrumental. Aqui o Kanye traz bastante nostalgia em relação ao que já vimos do trabalho dele. Você quer samples de souls choppados como tinha na trilogia original dele??? Tem muito aqui, você quer sintetizador distorcido e batidas abrasivas como é no Yeezus??? Tem, você quer músicas com vibe gospel como foi toda a fase Ye e Jesus Is King??? Tem, é como um resumo de tudo que os fãs gostam na discografia dele e é aqui pra mim que entra a parte boa e ruim desse álbum.
O Kanye do passado não era apegado a própria sonoridade, ele sempre se desafiava e encontrar um novo som e colocar a sua marca nele, e era isso que fazia dele um dos artistas mais geniais da sua época, porém desde 2020 você não vê mais isso nele. DONDA foi uma grande celebração da sua carreira com um disco de mais de uma hora e aquilo já era um grande amontoado das suas ideias anteriores em questão de instrumentais. Ai vem Vultures 1 e 2 que são álbuns de trap genéricos que qualquer produtor poderia fazer. E agora a gente recebe um álbum que parece bastante um grande "ei lembra o quanto era divertido gostar do Kanye West e não um completo pesadelo??? Então aqui estão 40 minuto disso", não é algo que move a carreira dele para frente, é meio como se ele estivesse jogando no easy para dar algo que fosse palatável para todos os fãs que ele tem da forma menos desafiadora possivel. Mas claro que o Kanye jogando no seguro ainda é melhor que 90% dos artistas que estão por ai. "ALL THE LOVE" é inacretitável de boa, no momento eu posso dizer que é a minha música favorita desse ano, a batida é como se você flutuasse, os vocais falando sobre como você não precisa se preocupar é como um conselho de um velho amigo, tudo é perfeito. "FATHER" é uma das melhores produções do ano, é como se fosse a combinação perfeita de Yeezus com um Graduation, com um dos melhores versos convidados da carreira do Travis Scott. "PUNCH DRUNK" te acerta como um soco mesmo com as analogias com socos em luta naquele beat gospel, inclusive é produzido pela North West, filha do Kanye que cada vez mais está se direcionando para a música, e por mais que eu vi que esteja sendo uma faixa divisiva eu adorei o crossover espanhol com o Peso Pluma em "LAST BREATH", inclusive deve ser a ideia mais original do disco, eu adoraria ver o Kanye indo para essa onda de reggaton com artistas latinos. No geral não tem nenhuma faixa do álbum que eu desgostei, existem algumas ideias meio repeitivas mas tudo ainda tem o talento do Kanye.
Como eu disse no começo tudo seria mais fácil se esse álbum fosse mais uma bomba de trap genérico ao ponto de eu nem precisar escutar. Eu não gostei dos dois Vultures e para mim era muito mais fácil ignorar todos os episódios de loucura do Kanye se ele não estivesse lançando música boa, porque ai nem entraria aquela velha história de separar o artista da obra, péssima pessoa e péssimas músicas. Bully é diferente, ele é o passo na direção certa, talvez ele careça daquele toque de genialidade do Kanye com músicas que ninguém está fazendo no mainstream como ele já fez de novo e de novo através da sua carreira, mas ainda assim é o Kanye indo na direção de algo que ele havia perdido a um tempo atrás. No fim Bully está bem longe de ser o melhor trabalho do Kanye mas também passa bem longe de ser o seu pior, ele fica ali no meio do caminho, não tem a genialidade de um My Beautiful Dark Twisted Fantasy mas também nenhuma faixa que faria o rapper passar vergonha como várias das que estão nos dois Vultures. E pelo menos para mim, como um fã de longa data do Kanye que passou pelos lançamentos e noticias mais bizarras do mundo atrelados a ele nessa década, é muito melhor viver em um mundo em que ele apenas lança um álbum que pareça um dia legal na escola, ou uma ida a um bar que você nunca mais tinha ido, essa é a sensação que eu tenho ouvido. Então a minha impressão final sobre Bully é que ele é bem melhor do que eu esperava e tomara que o Kanye esteja medicado para que a gente possa um dia ver aquele gênio dos anos 2000 e 2010 de volta, porque uma parte dele ainda está ali.
E essa é a gif que representa a minha reação ouvindo esse álbum:
AND NOW YOU GOT ALL THE LOVE AND ALL THE SHINE


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