Minha Crítica: Gorillaz - The Mountain



O Sgt. Pepper's do Gorillaz.


O Gorillaz está de volta. Desde a pandemia a banda virtual mais famosa do mundo estava em uma posição estranhada realacionada a sua música, eles ainda faziam muitos singles bons em colaboração com artistas da atualidade mas como projetos inteiros eles fizeram alguns projetos pouco coesos como a estação de rádio de Song Machine e Cracker Island que é mais ou menos um álbum sobre teorias de conspirações e bolhas digitais com o Russel como um líder de culto, bons conceitos com execuções medianas. Então em 2025 quando o Damon anunciou que o próximo disco do Gorillaz seria baseado em música indiana e seria algo que os fãs nunca viram da banda eu particularmente não comprei muito, porém depois que o projeto foi lançado eu posso dizer que o Gorillaz realmente trouxe um álbum conceitual como a muito tempo não víamos sair da mente do Damon Albarn.

The Mountain é um álbum conceitual sobre lidar com a morte, qual morte??? Dos pais do cantor da banda Damon Albarn e do ilustrador da banda Jamie Hewlett, mas sabe o mais bizarro??? Os pais deles morreram em um intervalo de menos de 10 dias de um para o outro fazendo com que as duas cabeças por trás do projeto Gorillaz experienciassem o processo de luto ao mesmo tempo. É a partir dessa experiência difícil e de uma viagem dos dois para a Índia que nasce a ideia de The Mountain. O disco funciona como uma interpretação do que é o processo de viver com seus autos e baixos com a analogia da montanha, segundo Hewlett: "A montanha é uma metáfora para a vida. A base da montanha é vasta, com muitas selvas verdes e muitos caminhos, muitas oportunidades, e quanto mais alto você sobe, mais estreito ele se torna. E se você chegar ao topo da montanha, o que há além disso? E isso é essencialmente a reencarnação". 

Nós vemos essa analogia na primeira música que é uma introdução do álbum e do seu conceito que se chama "The Mountain" que é apenas uma música indiana tocando e a frase "a montanha é onde todas as boas almas vem para descansar", para logo depois sermos levados para "The Moon Cave" que simboliza tudo o que o eu lírico esconde, seus sentimentos, medos e memórias que ele não quer enfrentar e dali vamos para "The Happy Dictator" onde essa analogia fica mais clara com um ditador te prometendo a felicidade eterna através de uma positividade tóxica e irreal, basicamente você ignorar tudo de negativo em um estilo opressor. Então depois temos mais um interlúdio chamado "The Hardest Thing" que fala sobre dar adeus a quem você ama ser a coisa mais dificil do mundo e depois disso vamos para a escalada da montanha, ou seja, ao eu lírico encarando os seus problemas e refletindo sobre o seu luto e principalmente sobre o conceito de morte com o cantor usando a ideia de que a morte não é o ponto final mas sim o começo de algo totalmente novo, uma ideia que é muito presente na cultura indiana e isso tudo vai culminar na última faixa onde ele vai encontrar Deus e ter uma conversa com ele sobre a humanidade em "The Sad God".

E claro que a cultura indiana não ficou apenas nas ideias das letras do álbum. Esse álbum do Gorillaz se destaca por uma das misturas sonoras mais ousadas da história do grupo: uma fusão entre o pop eletrônico ocidental e elementos tradicionais da música indiana, criando uma paisagem sonora espiritualizada e imersiva. Ao longo do disco, você percebe uma fusão entre a estética eletrônica característica do Gorillaz e elementos da música indiana tradicional. Instrumentos como o sitar, a bansuri e o sarod são incorporados de maneira orgânica, criando camadas melódicas e harmônicas que evocam um estado quase meditativo, marcado por repetições sutis, uma sensação de suspensão do tempo, como se fosse um looping musical, perfeito com o conceito lírico do disco. Essa escolha instrumental traz um clima de introspecção e contemplação, aproximando a escuta de uma experiência meio ritualística. Ao mesmo tempo, o álbum não abandona as bases que consolidaram a identidade do Gorillaz, como os sintetizadores, as batidas eletrônicas pegajosas e as colagens sonoras típicas do que o grupo vinha trazendo nos últimos dois álbuns. No entanto, diferentemente desses trabalhos anteriores, esses elementos aparecem de forma mais contida e integrada, permitindo que a influência indiana não seja apenas mais uma gimmick estética, mas sim uma parte central da experiência.

Os feats, que são sempre um show a parte em qualquer projeto do Gorillaz, aqui estão muito bem integrados a ideia do disco. O lendário Black Thought do The Roots aparece em dois momentos do álbum lançando suas rimas contemplativas e ele combina muito com a vibe mistica do disco. Temos os britânicos do IDLES em "The God Of Lying" em uma pegada meio post punk eletrônica que de alguma forma funciona muito. O guitarrista Johnny Marr do The Smiths está em duas faixas dando um tom bem melancólico para os dois momentos em que ele aparece. Porém para mim a música mais Gorillaz desse álbum em relação a mistura maluca é "Manifesto", música com uma pegada toda de música indiana animada de filme com um verso em espanhol do rapper argentino Truejo, e uma participação póstuma do Proof, sim o rapper da D12 melhor amigo do Eminem que morreu em 2006, a participação especial mais improvável que você possa pensar, é uma mistura em um liquidificador de sonoridades, ideias e estilos musicais completamente diferentes, e é a minha música favorita do álbum.

Tudo que me fez achar os últimos projetos do Gorillaz apenas oks é o que me faz achar esse um álbum sensacional do grupo. O álbum não se limita a apresentar músicas isoladas, mas constrói uma experiência contínua, em que cada faixa funciona como parte de um percurso simbólico inspirado na metáfora da montanha proposta pelo Jamie Hewlett. Nesse sentido, o disco se destaca por transformar um tema universal que seria a vida e sua finitude em uma narrativa sensorial, capaz de ser sentida tanto na estrutura musical quanto na atmosfera emocional, mas nunca como algo triste, o álbum não é melancólico mas sim reflexivo como uma sessão de terapia. Diferente de álbuns que tratam a morte como ruptura, The Mountain estrutura sua narrativa como um ciclo, uma topografia existencial onde subir não significa terminar, mas transformar-se em algo novo que ainda não temos compreensão. E é surpreendente como ele pega temas tão abstratos e que já foram falados na história da música várias vezes por outros artistas e consegue fazer algo completamente único, com o estilo Gorillaz mesmo utilizando uma sonoridade que nunca foi usada pela banda por um disco todo, ainda é muito Gorillaz, parece que só eles poderiam fazer esse disco dessa forma e fazer dar certo. Por isso para mim esse é no momento o meu segundo álbum favorito do Gorillaz (atrás de Demon Days), trazendo o que de melhor eles faziam conceitualmente nos seus três primeiros discos junto com as misturas de sons e ideias que se tornou marca registrada do grupo ali de 2017 para frente. 

Como indicação eu indico "The Happy Dictator", "The Manifesto", "The God Of Lying" e "The Empty Dream Machine" mas como você já pode adivinhar a essa altura eu recomendo que você escute o álbum todo porque ele é uma jornada feita e que merece ser ouvida em sua totalidade para você entender tudo o que esse disco traz. E essa é a gif que representa a minha reação ouvindo esse álbum:

Yo no sé qué va a pasar mañana 
Cuando atienda la luz que me llama

Comentários

  1. Gorillaz é muito maneiro, eles fazem algo quase único na música, e é isso que tem que ser valorizado, além da óbvia e impressionante capacidade do escritor de arrancar tanta coisa de apenas músicas. Valorizo isso por que só sou capaz de ouvir e dizer se gostei ou não da música e da vibe que ela passa.

    Bom Trabalho Sr. Stone, Abraço!

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