Favourite Worst Nightmare: a crise dos 20 em forma de disco


Existe um mito curioso entre a adolescência e o início da vida adulta. Achamos que instantâneamente depois dos 18 acabam as confusões mentais e automaticamente tudo passa a fazer sentido de forma tranquila e estável. Mas não é bem assim.

Os 20 e poucos anos são, muitas vezes, apenas uma continuação da bagunça emocional dos 16, só que com menos drama explícito e um pouco mais de sagacidade. Começamos a enxergar as coisas com mais ironia. É quando acreditamos que entendemos a fórmula de tudo, mesmo sem entender porra nenhuma. Para mim, o indie rock sempre soou exatamente como essa fase.

O rock de garagem, a aleatoriedade que expressamos nossos sentimentos, até o drama que ainda herdamos na adolescência. Todo esse limbo temporal entre a juventude e a maturidade resume perfeitamente o melhor espirito do indie rock dos anos 2000. E poucos discos capturam isso tão bem quanto Favourite Worst Nightmare do Arctic Monkeys.

Sempre tive a impressão que o indie rock não pertence a categoria "teen" de gêneros musicais. Essa função já estava ocupada pelo pop punk, emo e nu metal. O indie soava diferente. É quando você já não é exatamente um adolescente perdido, mas claramente ainda não virou um adulto estruturado. Quando a intensidade continua existindo, mas agora misturada com ironia, cinismo, charme e uma falsa sensação de controle.

Favourite Worst Nightmare habita esse limbo com maestria. Ele não tem o frescor juvenil despreocupado do debut, mas também não tem a introspecção calculada dos discos posteriores. O álbum inteiro vibra numa tensão nervosa que soa como alguém dizendo "eu sei exatamente o que estou fazendo" enquanto claramente está à beira de um colapso emocional.

Essa sensação não vem apenas das letras ou da estética do disco. Ela está na própria construção do álbum. Favourite Worst Nightmare é um disco que oscila o tempo todo. Logo na abertura, "Brianstorm" estabelece o tom mais ansioso possível. Esse impulso continua em faixas como "Teddy Picker", "This House Is a Circus" e "If You Were There, Beware", onde a banda opera numa frequência elétrica, nervosa e levemente paranoica.

Mas o disco não sustenta essa intensidade de forma linear, e é justamente aí que ele se torna interessante. "Only Ones Who Know" surge como uma pausa melancólica e frágil. De repente, toda a postura confiante dá lugar a algo muito mais vulnerável.

Tem um lado mais sarcástico que eu gosto muito também. Quando o Alex Turner manda você jogar sua aliança e trair sua esposa em "The Bad Thing". Ou em "D Is For Dangerous" com a ideia de flertar com o perigo só pra sentir aquela adrenalina e ver o que vai acontecer. E claro, "Fluorescent Adolescent", que para muitos é a música mais melancólica do disco, mas para mim é a mais brilhante justamente por sua ironia. Turner brinca com aquele senso de urgência quase cômico dos jovens, quando sentimos que a vida está escapando cedo demais, antes mesmo de termos vivido um quarto dela.

Já "Do Me a Favour" funciona como uma ponte entre esses mundos. Começa contida, quase resignada, e termina em explosão. Como um término que começa racional e termina emocionalmente devastador. E então vem "505", não apenas como encerramento, mas como síntese. Uma música que cresce lentamente até desembocar em um dos momentos mais emocionalmente crus da discografia da banda.

Alguns álbuns envelhecem, outros mudam de significado, e alguns permanecem estranhamente intactos. Não porque soam iguais, mas porque continuam dizendo algo essencial sobre você. Favourite Worst Nightmare nunca deixou de soar como aquele limbo estranho entre juventude e maturidade. Um disco nervoso, confiante e vulnerável. Um retrato sonoro da fase da vida em que achamos que entendemos tudo enquanto ainda estamos completamente perdidos.

Talvez seja por isso que ele continua sendo o meu (pior pesadelo) favorito. Não apenas dentro da discografia do Arctic Monkeys, mas dentro daquela categoria muito mais rara: os discos que parecem ter crescido junto com você.

Essa versão demo de Fluorescent Adolescent é melhor que o original, confie em mim!

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